segunda-feira, 29 de junho de 2015

Jack e Eu em O dispêndio de amar

Não estava com suficiente disponibilidade de espírito para fazer parceirice com Jack em um compromisso lá dele. Mas por ceder facilmente quando sob pressão e não ter uma personalidade suficientemente forte para dizer não, acabei indo. Enquanto caminhávamos absorvendo os barulhos e ventos dos carros passantes, contou-me dos seus fartos e promíscuos casos de amor. - Eram de amor, se pá... Ainda são de amor. Sei lá... - disse ele de olhar rasteiro e desimportante. - Mas Jack! - eu, estupefato - Você não se apega à elas? Você não as ama? - Não me apego, mas as amo. Amar ou não amar é pura questão de escolha. Sofrer ou não sofrer, tá ligado? - E aí puxou um catarro ruidoso da guéla expelindo-o ao acaso com bastante propulsão - Rola uma tristeza, uma saudade de curta ponta aguda quando me distancio delas; mas se liga, amá-las até a estabilidade da rotina é mais dispendioso do que qualquer tristeza, do que qualquer saudade. Disse ele com menosprezo do seu próprio sentimento de desolação, retendo nos bolsos as mãos. - Mas e aí, pô? - Eu com atenção no seu ensimesmar ensimesmado. - E aí o quê? - Tu vive assim? Tu vive só? Pra sempre? Perdendo as oportunidades de fazer perdurar um amor? - Qual o problema? Amar é muito dispendioso, mano. As vezes não vale a pena. Poucas vezes, na verdade, valem a pena. Olhou para o céu e pareceu querer encontrar algo nele. Deduzi que fosse uma resposta qualquer. E continuou: E outra, uma vez que se perde o grande amor da vida, qualquer coisa que se venha a perder depois disso é qualquer coisa que se venha a perder, saca? Seus passos ficaram curtos, parou, olhou o céu de maneira mais desimportante e começou a voltar. - Ué?!Mas e o teu compromisso? - perguntei. - Esse era o meu compromisso. Dá um rolê e por vezes olhar o céu. E seguimos na volta. Ele, com as mesmas mãos nos bolsos, os mesmos passos curtos e a mesma ensimesmação lá dele.