segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ride my bicycle

Pude receber o vento frio das planícies nubladas. A boca aberta tomava formas desordenadas que o vento propunha. Só, nas recentes pistas de caminhada que envolviam uma recente verde área cheia de cheiros e expectativas... quem sabe saísse dali pessoa de má intenção? Ainda mais tendo eu visto resquícios de gente no gramado molhado... Só, com minha bike, compartilhando, ou tentando, as pistas infinitas com os carros. Carros, não pessoas, que talvez nunca poderiam estar sozinhas como eu estava; que talvez não poderiam sorrir, como eu estava. Digamos que a felicidade é para os poucos, para os poucos, que diferente dos muitos, pouco desejam. Derrepente ir pelo menos em uma rotina de quantidade desdiz todo o alienamento capitalista. Por um instante a liberdade existe, toda palpável e cheirosa e bonita e tantas poucas coisas nos meus bolsos e na minha mochila rasgada... Podendo haver quem diga o contrário, lógico, subterrando manifestas felicidades simplórias unicamente para impedir a proliferação de uma felicidade não rentável. O que seriam das concessionárias caso seus consumidores descobrissem que de fato não precisam delas? Alí, com o vento na cara e o pedal sobre os pés não poderia haver ódio, lágrimas, rejeições. O que não pensar da existência?: que sua durabilidade tem de se fazer preponderantemente de felicidades; que a tristeza não existe já que existem todas as coisas compráveis para extinguí-la. Foda! Ali, com o sorriso na boca e a música no peito, o momento – curto que seja – existia e nada mais. Perfeitamente bastante! O que não viver na vida?: O momento que ainda não existe; a futura tristeza de futuros prazos vencidos e recalculados em juros; o futuro reajustado com todas as coisas cujas posses são indispensáveis – como nos fizeram crer. Pode ser que a solidão de um homem não o faça gastar tanto quanto se estivesse na companhia de outros, talvez seja por isso que o sorriso só, a felicidade solitária, os risos altos deixados nos ventos cortados pela deslizar da bicicleta e não escutados por ninguém sejam considerados insanos. “Eis ali um louco que consegue tirar de sua solidão e do pedalar sem caminho a felicidade que por muitos é buscada.” Então quer dizer que é permitido sorrir para as outras pessoas, que de olhos rasteiros caminham apressadas para algum destino talvez não satisfatório... Quer dizer que é possível arrancar alegrias de um fiscal de trânsito anotando hermeticamente as placas de alguns carros ao falar-lhe, com um imenso sorriso nos lábios, que me desculpasse, pois minha bike estava sem placa... quer dizer, então, que é possível constatar, juntamente com um carroceiro desdentado e a princípio triste, a beleza de uma tarde nublada e fria, quando se dá a ele, gratuitamente, um sorriso, desejando-lhe uma mera boa tarde. Então quer dizer que é possível a felicidade sem subsidiá-la com apetrechos instituídos... Quer dizer que é possível respeitar, compreender, vangloriar o tempo, com o tempo, indo de bike de Ceilândia a Brasília marcando com o coração as melodias que talvez eu nunca cantaria tão alto em minha casa... Ainda que gélidas gotas, aparentemente decepcionantes, toquem de com força nos corpos livres daqueles que pedalam, haverá na boca, daqueles que pedalam, os traços formadores do sorriso.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Poesia de um funcionário público

Barriga cheia Coração vazio

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A melhor coisa que pode acontecer a um homem de sociedade é ter um imprevisto no curso massante de seu dia comercial. Só assim o seu dia seria significativo. Se lhe quebra o carro, por exemplo, quando esse homem sai ao ofício, logo terá algumas horas ou, por sorte, o dia inteiro, de vaguidão; colocando-se na espera de uma ajuda que lhe salve - ou, no caso, lhe condene - enquanto lhe passa a cabeça várias formas de explicação a respeito daquilo que o livrou de suas obrigações rotineiras. Nesse caso, pode-se imaginar Robertin, seu chefe, ouvindo seu funcionário que empenhadamente constrói um discurso de desculpas despropositadas num lamentoso tom para que não pairem dúvidas a respeito do incidente. - Tudo bem, Esmegma! Você é um bom funcionário mesmo! Se fosse o Saumora não aliviaria. Mas você! Então o cidadão desligaria o telefone, aliviado, e soltaria uma forte rajada de ar pelas narinas provinda de seus pulmões tenazmente entumecidos. E sentaria em uma gélida sombra decorrente de uma grande árvore de folhas verdes, verdinhas. E colocaria seus olhos no rumo dos espaços abertos, absorvendo a solidão de uma beira de avenida metropolitana e permitindo-se voar nos pensamentos que lhe presenteiam as horas vagas.

domingo, 21 de outubro de 2012

Nestes exatos segundos de perca, de não se saber o que será feito, de silêncio e astaticidade, tinha algumas coisas para dizer. Não se incomode, eram coisas absurdas de mais para serem escutadas. Assim como a minha vida. Disse, hoje ainda, que o motivo despropositado do meu silêncio era o cansaço. O cansaço de viver, de se manter vivo, de sobreviver quando a vontade preponderante é a de fazer exatamente o contrário. A morte? Por aqui as coisas continuam; nem se cessar elas se cessam, elas apenas continuam, como se fosse essa a única opção. Por aqui se aloja uma tristeza milenar, imutável, densa e triste. Deveria bastar para os peitos solitários; e de fato basta. Já não sei o que digo... Assim como a vida esta escrita despropositada me é totalmente insignificante e triste. Não por tratar de um tema que poderá ser triste, mas pela literatura totalmente ruim – triste! Carregava, como quem carrega pequenas pedras que estalam com o balanço galhofeiro da mão, algumas lembranças sobre as quais depositava certa felicidade. Agora já não carrego, pois são vãs de mais e seus pesos e volumes não compensam ser trazidos por mim, nem por ninguém. Porque se de fato há uma caminhada infindável, essas tolas lembranças felizes só ocuparão espaço onde já há um vazio. Por aqui as tristezas se acumulam pelos cantos, outrora doía bastante vê-las jogadas, acumulando maldizeres e provocando lágrimas a quem quer que as olhassem. Agora o foda-se meio que tomou conta de tudo e nada mais parece ser de fato importante. Nem mesmo aquelas poucas e ralas lembranças que insisti em trazer nas mãos só para lhes ouvir os estalos. Por aqui se aloja um silêncio muito grande; e nos parece que não há mais vozes para preenchê-lo. Por aqui se insiste em petrificar os sorrisos passageiros e perdurar as dores que não são eternas, apenas desejáveis. Já não sei o que quero, a que busco... Entrei na fila lenta esperando, talvez, alguma garantia de futuro. Porra! Não poderia esperar por mais nada? O futuro? Todas as pessoas sofrem demasiadamente, meu caro. Por que eu não haveria? E você? Sejamos silenciosos e tristes. Assim vivemos no sossego que a falta de felicidade proporciona. Não? A espera... Já não sei o que digo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

CLARO

- Isso que você tá me dizendo não teria sentido ou importância caso me fosse dito alguns dias depois de hoje. - Disse-me Jack sustentando uma xícara de cappuccino próximo aos lábios, deixando seus olhos envoltos pela fumaça quente da bebida. - Você acha? - Ochi! Mais é claro, porra! Não lhe disse nada de mais. Só lhe contei a respeito dela. Perguntei-lhe, com uma leve pretensão de lhe dizer o enorme encantamento que tive, quantas mulheres ele já conheceu que tinham um perfume próprio. - Algumas - Disse ele deixando a xícara sobre a mesa e abrindo o peito apoiando os braços na cadeira - Principalmente prostitutas do Setor O. Mas essas não tinham cheiros agradáveis... - Essa mina, Jack, não cheira Boticário, nem Nívea, nem nada. Ela tem o próprio cheiro! Já imaginou isso? Feito a partir de sua personalidade. - Personalidade? - É. Personalidade... de sua pessoa, saca? Um cheiro sereno e silencioso; diferente de seu sorriso ligeiro e bem formado. - Só... - Disse Jack soltando uma forte rajada de ar pelo nariz, tão forte que lhe foi inevitável conter algumas impurezas acumuladas pelos dias secos e tristes de agosto. Disse a Jack que todas as palavras dela pareciam me remeter a uma espécie de felicidade eterna. Costumava intervir sorrisos repentinos em seus raciocínios elaborados, como se todas as coisas derrepente virassem brincadeira e a vida derrepente valesse a pena. - Uma certa vez ele me disse que teríamos de levar a vida brincando. Sempre! - Ochi! Quantos anos ela tem? - Não se trata de idade, Jack. - Já tenho muitos amigos pedófilos. Mais um é foda. - É apenas uma maneira alternativa de encarar a realidade, pô! Disse também a Jack que era debaixo de prédios e estrelas apagadas que nossas mãos temerosas costumavam se tocar, mantando entre elas o meu calor pesado e a sua leveza de perfume próprio. Jack alertou-me sobre o amor ou algo do tipo e disse-me que o frio da beira do Lago trazia, aos seus contempladores - ou pelo menos a um deles, um sentimento largo e remanescente que causaria dor pela sua indefinição e expectativa. Disse que sim, não sem antes ensimesmar-me em sua afirmação. - Ela brinca, Jack! Ela lê Shakespeare no original! Ela sorri! Assim por gosto ou por prazer, ainda que se possa ver lágrimas em seus olhos. - Cabuloso! Talvez tenha alguma coisa no cabelo dela... - Ela acaricia o meu coração, sorrindo é claro, e joga fora com um estalo de dedos as escuridões que encontrou lá dentro. Me sinto bem e a agradeço, ancioso por poder retribuir, mas não consigo. - Aí que tá! todo o bem que vem dela é de graça! Não se paga por ele, entende? Defícil entender, né? Que merda você é muito mal! Talvez tenha alguma coisa no cabelo dela... - É. Sou. Mas tô tentando mudar. Ela disse que era possível... - Sei... - E deu mais uma golada no seu cappuccino já sem fumaça - Talvez tenha alguma coisa no cabelo dela... O dia foi morrendo sem que percebêssemos e Jack não tirava os olhos do sol que desaparecia. Lembrei-me da escuridão lenta que tomou os verdes do povoado de São Jorge, nos tempos em que me permiti apaixonar. - É... É assim mesmo... A vida vem a vida vai! - Disse Jack desviando seus olhos fatigados para a xícara vazia - Tudo é muito absurdo. Agente deixa que as coisas fiquem sérias de mais, aí já era... - Engraçado, ela me falou sobre isso também. Jack levantou-se apressadamente e saiu. Sem pagar o cappuccino. Acompanhei-o e demos os braços subindo, exaustos, a ladeira. Andamos em silêncio e a vida parecia ser triste.

sábado, 30 de junho de 2012

em um banco de Igreja anexado à uma conta

TU QUE ME LES, POR OBSÉQUIO, COMPREENDA. QUERO, ENFIM, TER UMA COSTATAÇÃO DA FÉ POR MEIO DESTE ATO QUE ACREDITO QUE PODES ME AJUDAR. ARREPENDI-ME DOS FINAIS NOS QUAIS SEMPRE ME ENCONTRO NO FINAL DAS NOITES DE AGITO, DE CURTIÇÃO, DE PEGAÇÃO... ARRPENDI-ME DE LEVAR UMA VIDA CHEIO DE SORRISOS VAZIOS E DE COMPANHIAS QUE SOMENTE VÊEM ESSES SORRISOS E NÃO A TRISTEZA, A SOLIDÃO. GOSTARIA MUITO DE RECOMEÇAR; E O QUE ME FALTA, DENTRE AS MAIS PESAROSAS MAZELAS DO RECOMEÇO, É QUE ESTA DÍVIDA SEJA PAGA. PROVANDO-ME ASSIM A GLÓRIA E AS IMPOSSÍBILIDADES FEITAS POSSÍVEIS QUE A FÉ PODE FAZER. ACREDITO QUE ASSIM MEU RECOMEÇO POSSA SER MAIS SIGNIFICATIVO, TENDO EM VISTA QUE, SE SANADA A DÍVIDA, ESTAREI DE FATO ABENÇOADO POR DEUS. GRATO...

terça-feira, 12 de junho de 2012

DAS EXPECTATIVAS

Nego diz por aí que nego confunde de mais os sentimentos. É... talvez seja verdade,né? Muitas vezes tem disso mesmo, de você supor-se apaixonado por repetir pequenos gestos que geralmente só os apaixonados fazem, quando na verdade você apenas gosta; e aí você repete tais gestos talvez por sentir falta de se sentir apaixonado – porque querendo ou não é um sentimento bom - ; ou talvez por se sentir carente e precisar deles, dos gestos, para sanar, por uma noite que seja, essa saudade que a pele tem de outra pele. E que porra de gestos são esses? Ah! Sei lá! Tipo, deslisar devagar sua face em uma outra face aproveitando, enquanto durar esse gesto, para sentir o perfume, o calor, a dosagem das intensidades em que as faces se tocam... sentir através dos lábios as características da outra boca... Pô, eu acho que isso são gestos que, geralmente, só os apaixonados fazem. Mais tem uma parada aí! São gestos que não existem apenas em duas pessoas apaixonadas – definitivamente não!; ou que são feitos apenas como um pretexto para uma trepada digna de duas pessoas apaixonadas – Não! Esses gestos, esses simples gestos – não sei por que os chamei de “gestos” – eles representam a pura verdade de uma pessoa! E aí que ta a parada! Se você tiver coragem de olhar para trás e me dizer que foi feliz até então, dito no que diz respeito ao... (gesto de fudelância), certamente você vai me dizer também que um dos melhores beijos que você já provou foram aqueles bem peculiares...; aqueles que a princípio você, talvez, até estranhe pela audácia, pela liberdade e pela sinceridade que a outra boca te beija... mas que no fim das contas você gosta; e muito! É a verdade, entende? Mostrar sua verdade para uma pessoa é ter muita coragem; certamente que é. Agora... fato é que vivemos com muitas máscaras; e quando as retiramos, com muita dificuldade é claro, e nos apresentamos com esses gestos, dignos de pessoas apaixonadas, dignos da nossa verdade, logo vem a rapariga me dizer que não tem como não estarmos apaixonados! Porra, pera aí! Agente confunde de mais nossos sentimentos; eu só dei a ela o que daria a qualquer uma – menos para as altas, não gosto de mulher alta – a qualquer mulher que eu goste, ou seja, todas – é... acho que também não gosto das muito gordas... É quase um gostar de amigos, sabe? Só que amigos com sexo diferentes que as vezes se pegam. A diferença entre ter um amigo homem e uma amiga mulher é que um paga a cerveja e o outro o boquete. Quem disse que homens não têm amigas? Não digo dos gays, é claro... e aliás quero até morrer amigos deles, justamente por esse motivo... Amigos que conversam sobre tudo, que ficam muito doidos juntos, que trocam carícias por mais que não seja um pretexto para uma trepada, amigos que transam e dormem juntos. Isso não é estar apaixonado. Ou é? Talvez as pessoas devessem deixar mais claro quem elas realmente são; tanto sobre suas intenções, quanto sobre seus sentimentos. Aí sim seria mais fácil. Nenhuma mulher sofreria a toa por expectativas não correspondidas e nenhum homem precisaria mentir só pra comer mais uma. Quando é que as mulheres vão entender isso? Opa, disculpa.... digo... as poucas que ainda não entenderam?

quarta-feira, 6 de junho de 2012

São Paulo, dia 12 de janeiro de 2009

Todos os sinais fechados.
Em uma escuridão de irrevogáveis esperanças,
vozes lacrimosas berram à felicidade.
Todos os sinais fechados.
Túmulos se abrem
sobre o céu longínquo
da Av. Paulista e almas perdidas entram dentro.
Todos os sinais fechados.
De fato nada mudou, a tradução do mundo
continua sendo a tristeza
A tristeza...
Todos os sinais fechados.
Todos por uma busca vã,
por uma crença de vidro,
por um amor inexistente.
Avenidas em X
marcam onde jaz meu corpo ermo;
vidas se arrastando pelos longos caminhos
de longas avenidas
e no entanto,
todos os sinais fechados.

domingo, 3 de junho de 2012

O amor

Eis um fato, meu caro Jack:
Estava eu na universidade...
- Universidade de cu é roala! Interrompeu-me Jack sem variar a expressão neutra de seus olhos rasos, com uma xícara de café prestes a tocar seus lábios.
Sim, sim. Estava eu em uma daquelas aulas, só mesmo por estar, quando derrepente surpreende-me pousando intimamente o braço sobre meu ombro um moleque, meu colega - veja bem que não é amigo. Se posso confiar na memória, diria que nos vimos duas ou três vezes cruzando, ambos apressadamente, os corredores da universidade.
- Universidade de cu é rola!
Sim, sim. Apoiou o braço gentilmente e confortavelmente e ficou a olhar alguma coisa que eu desempenhava que não me lembro bem... ou me lembro e não quero te dizer para não lhe dar motivo de zuar com minha cara.
- Já sei, você estava bolando um beck!
- Não, não.
- Uê? Você não estava na UnB?
Em fim. E aí o moleque ficou olhando, olhando, eu olhando para ele e ele com aquele sorriso que não estava na boca, mas que transbordava pelos olhos. Meio sem jeito e um pouco incomodado perguntei-lhe se lhe agradava o que eu estava a fazer. Disse prontamente que sim e chegou a fazer alguns comentários elogiosos, não a toa para me deixar mais confortável, a final estávamos muito próximos um do outro, sendo que não existia entre nossa relação de colegas nenhuma intimidade, mas, acredito, para contribuir com o que eu desempenhava.
 Em uma situação dessas, Jack, creio que a maioria das pessoas, as pessoas que não estão a receber a pressão do toque do amor, falariam por falar, sem realmente considerar o que eu estava a fazer; diferente desse moleque que além de ter me dado uns toques de como melhorar o meu trabalho elogiou o que não precisava melhorar.
- O moleque estava sobre a pressão do toque do amor?
Sim. E eu nem desconfiava. Fui saber muito depois quando a aula terminou e ficamos a conversar sobre a vida embaixo de um céu pobre e escuro. Insisto em dizer que o moleque era apenas meu colega, não amigo; apenas o vi algumas vezes nos corredores da Univer...
Jack já ageitava os lábios para dizer sua frase de rotina. Interrompendo a minha, não lhe dei chance para dize-la.
- Então o grande lance disso tudo é...? - Falou com certa impaciência esperando a resposta e soltando pelo nariz uma forte rajada de ar que eu pensava trazer impurezas já que era bastante ruidosa.
O grande lance, Jack, é que o amor transforma as pessoas! O grande lance é que o amor faz coisas com os apaixonados que nada poderia fazer igual.
- Nem a maconha?
Nada! O grande lance é que o amor evita guerras, evita o ódio, evita o demônio, cara! Era um moleque que eu nem conhecia... era daquele tipo de pessoas que só temos conhecimento pois em algum momento da vida, que refutamos gravar na memória, cumprimentamos de passagem nos corredores; e aí ele me vem apoiar o braço no meu ombro e puxar conversa? Poxa! O moleque devia estar muito feliz. Muito feliz para quebrar todas as frias formalidades, cruzar um espaço considerável para chegar a mim, aproximar de mim, e bem perto, apoiar o braço sobre meu ombro e ali ficar por muito tempo - tendo em vista que não tínhamos nenhuma intimidade, então foi muito tempo.
- É... a paixão é pra poucos... Admiro esse moleque. Se existem pessoas, como eu, que vivem em busca da  lombra eterna, outras, como esse moleque aí, já a encontraram. O amor é a maior das lombras. Estar apaixonado é a brisa mais forte já sentida.
Então! O foda é que o moleque insistiu na felicidade, a fez durar enquanto ainda havia dia, conversando comigo, só nós dois, ao final da aula.
- Embaixo de um céu pobre e escuro?
Sim! Ficamos conversando por muito tempo. Ele me falando de coisas que certamente eu não falaria a um colega cujas relações não passavam de escassos cumprimentos em corredores. Coisas de sua vida, coisas íntimas, sabe? E eu a ouvi-lo atentamente impressionando-me cada vez mais com sua sinceridade. Ele se empenhava em me contar as coisas, parecia empolgado demais por estar vivo; a felicidade não lhe cabia, era necessário dividi-la com as pessoas sortudas que o rodeavam e eu, por acaso, era uma delas.
Tudo se fez mais claro, Jack, quando ele recebeu uma ligação e de sua boca risonha e branca ouço "amor". Aí, então tudo fez sentido.
- Caralho..!
Pois é. Depois de um tempo um carro chega e ele diz que tem que ir. Ele se afasta e tenho a impressão de que está pulando de alegria, mas é só impressão mesmo.
- Você tinha fumado?
Não, pô. Ele chega perto do carro e dele desce um cara alto, magro, bem arrumado que lhe beija a boca.
- Ah! o moleque era gay!
Sim. Os dois entram no carro e vão embora tendo como trilha Give me all you luvin da Madonna.
- Pois é... como eu disse a paixão é pra poucos... Diria que atualmente só pros gays. O relacionamento hétero é uma coisa falida, sabia?. As mulheres já não aceitam simplesmente abrir suas bucetas permitindo a entrada de um pau, preferem que sejam acariciadas por uma língua, de preferência feminina.
Isso é porque você está andando muito com esse povo da UnB, Jack.
- Você acha?
Sim.
Embora esperasse que dissesse algo, Jack apenas deu aos olhos um caráter perdido e aproximou sua xícara  aos lábios.

domingo, 18 de março de 2012

Conversas 18/03/2012

Depois de um, em princípio meio malemolente, mas no final agradável e feliz, dia de trabalho, ofereço, como gentil camarada que sou, uma carona para meu amigo e meu semelhante Joli - as pessoas o chamam de Dom Joli - algumas apenas. Entramos no carro e antes mesmo que lhe perguntasse, ele já me trouxe a resposta - um beck. Vejam o motivo pelo qual lhe ofereci carona... Fomos conversando coisas mornas - se comparadas às seguintes - até que uma espécie de madeira lascada enganchou no assoalho do carro, como um lança belicamente preparada por um samurai. Então a conversa ganhara outros ares.

Faremos a verdade. Se algum filho da puta nos vier perguntar o que propriamente fazemos, que estilo, que gênero, que porra, no teatro, diremos Faremos a Verdade. É sobre tudo. Tudo que vivemos contemporaneamente na sociedade e da consequência da sociedade, da civilização, das culturas, da Matrix, do Sistema... É sobre isso, porra.

As redes sociais, talvez, tenham uma grande participação nisso. Agora as pessoas estão ficando mais sabidas, mais detentoras e proprietárias dos conhecimentos, eu diria. Ainda que a isso não busquem, já que até o que você não deveria saber, acaba sabendo por causa do fecebook (pois é, minha ex deve estar rindo de mim por causa daquele post melancólico...) You Tube mostrando livremente opiniões que nem na puta que o pariu seriam mostradas na TV, que é uma das maiores armas Deles, ou pelo menos era. É hora desses putos trancarem o cu e temerem, por exemplo, um sequestro... não, sequestro é sacanagem... um estupro da filhinha deles por um negão bem pirocudo em troca de algumas exigências que incluem, no mínimo, o cumprimento (ou comprimento não sei como escreve essa porra) dos nossos direitos previsto na Constituição; e a longo prazo: em troca de "ninguém precisar pagar nada para ninguém e ninguém precisar arrebanhar as almas de ninguém" - a Matrix não precisará ser construída, caralho! E coisas do tipo.

Falemos disso no teatro, ou o teatro disso. Só há um tema a ser tratado, o que vai mudar serão as formas que receberão esse tema. Daí, então, será original. Inovador e a porra toda. Será o seu jeito de se fazer bem, só você sabe como é. Subiremos no palco para sentir vontade de ter algo foda a dizer. Assumindo riscos, é claro, de dizer coisas perigosas para Alguns, o risco de ser processado pelas diversas instituições estabelecidas - não criadas - pelo Sistema. Mas afinal qual o nosso papel, caralho? Digo, enquanto artistas? E certamente nada mudará, mas tem quem pague para ver o oco.

Chegamos a lembrar com muita empolgação e com lágrimas nos olhos alguns trabalhos que nos fizeram isso, ou parecido. Dom Joli citou "Adubo ou a sutil arte de escoar pelo ralo" e um documentário que não me lembro precisamente agora... "Aqui que estamos por vós esperamos", acho... Eu disse "In on It". Ele compreendeu, ainda que não tivesse visto a peça, quando disse que chorei quando assisti.

Diremos esse tipo de verdade, algo que nos cause algo ainda mais que risadas passageiras. Queremos algo de durável e talvez, até, eterno nos corações do público dessa contemporaneidade. Não só falaremos o que todos, ainda que não sabem, estão sequiosos por saberem, como nos faremos compreendidos. Sem viajar tipo UnB e essas porra do tipo. Por isto será durável e talvez eterno, pois será um ponto a mais em nossas vidas - e não apenas algo que repetimos, devido à moda, para, também, ganharmos dinheiro, herdeiros de uma Culpa que foi da Mãe. (sacou?)

O que me ocorre: Um velho bem fudido, beirando o túmulo, falando para um mancebo rosado sobre a "Matrix". O que eles escondem de nós; porquê. O que vai acontecer no futuro quando toda internet, meio que por enquanto distribuidora Ltda de opiniões, ficará severamente fiscalizada por Eles; e isso foi ficando cômodo desde quando os blogs começaram a pagar para o ECADE cada link do you tube postado. E é um velho que fala; ele vê isso acontecer desde muitos e muitos anos; desde as primeiras pentadas violentas em seu cu, as quais ele não viu, ou viu e não resistiu, deixando-as entrar pelo menos com camisinha. Fala também de George Clooney que foi preso com seu pai decrépito em um protesto contra a ditadura assassina que atualmente rola na Líbia e as consequências que isso gera (Confere, Dom?) Fala de por que escrever"Deus" com letra maiúscula quando está se referindo ao deus mais rico que é dono, até, de um país. Fala também que existem pessoas dormindo nas ruas e, porra, ninguém está fazendo nada para mudar isso; nos acostumamos, como as encarcadas. E só tenderemos a nos acostumar com coisas piores - se nada for feito... V... Fala também que Eles nos prometeram cuidados, prometeram cuidar de nós quando não mais poderemos trabalhar para Eles. Mas porra nenhuma! Prometeram essa merda em troca de uma vida de escravidão suavizada. E o que é pior, Eles nos fizeram dependentes dos Seus cuidados. E ele também fala de que a sua mãe, aquela burra, acreditava, sem flexibilidade, que a avó dele não morreria, ou não queria acreditar; sendo que aquele véia já estava com quase 104 anos. Fala também que viveu de perto o processo que sua vó, antes de morrer, passou até desaprender a sorrir, depois que as visitas dela ao hospital começaram a ser frequentes, como se estivesse preparando-se para morrer.

Depois disso, o velho recebe um chute categórico no cu, desferido pelo mancebo. Black out lentamente...

Na parte da atuação, é como se o ator tivesse a necessidade de apresentar aquela peça; como se sua interpretação, sua arte, o que ele dirá, tiver necessidade de existir. Porque se não ele achará gratuito, bobo. Não sentirá necessidade de fazer graça, ou fazer bonito, ou ser foda. Será engraçado naturalmente. Será simplesmente ele. Verdadeiro e nada mais. Para ele o riso será também o trágico.

Ocorre-me: uma espécie de palestra em que vídeos, no telão, a guie. Uma espécie de palestra... Meio que um futuro presidente dos EUA combinando novas estratégias de se manter no poder, ideologicamente e financeiramente. Aí ele explica estratégias passadas de como conseguiu escravizar as pessoas, ideologicamente e financeiramente; e como, a partir de então, no futuro, conseguirá, já que muitas mentes estão sendo desconectadas da matrix. E como o espectador olhará essa encenação, ideologicamente e financeiramente. Tipo isso...

Ocorre também: um cara do futuro com roupas modernas, um jeito de falar estranho, zombando violentamente, e com razão, dos hábitos que adotamos hoje. Tipo "a futilidade de como eles deformavam seus corpos, de todas as maneiras possíveis, mesmo que não quisessem, só para estarem dentro do que o sistema julgou, e claro que com base nos critérios idiossincráticos, certo para o momento." E de outras coisas mais. Ele zomba de como acreditávamos em um Deus. E de como certas Pessoas faziam para arrebanhar outras... E no final ele conta o seu presente; a evolução dos mais fortes, daqueles que sobreviveram depois de uma guerra civil causada por algumas instituições que foram ditas, por Eles, de terroristas; mas só por Eles e mais ninguém.

Ocorre: (e dessa vez acho que poderemos encontrar uma originalidade) Não deveria ter personagem. Não deveria ter historinhas. Nem porra nenhuma. E que os atores ou ator diria o que tem a dizer ele mesmo, com o que ele tem de melhor. Sendo ele mesmo. Uma interação violentíssima com a plateia. Criar uma intimidade foda com nego que você nem conhece, porque você vai estar falando sua verdade para ele, se abrindo; fazendo, assim, com que ele, espectador, também se abra para se criar um puta diálogo.

Falemos o que tem de ser dito e nada mais. Falemos sobre a verdade e com verdade. Se não formos nós, será um outro filho da puta.

O que também diz respeito a tudo isso. Por favor veja:

http://www.youtube.com/watch?v=F6fl5fq6qLs&feature=fvwrel

http://www.youtube.com/watch?v=_IdV7FI8_sw&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=HTF9uqmLs3k&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=UueCjRrQLM4&ob=av2n

http://www.youtube.com/watch?v=0nSzFklhJzg


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Jack e Eu

O tempo está se esgotando, Jack – é o que a minha consciência pesarosa costuma me dizer – estamos ficando sem opções e, mais ainda, sem dinheiro. Tento pensar em outras coisas, lembrá-la de que optei por uma felicidade supostamente eterna e não por uma escassa de fim de semana, se é que realmente poderão existir nos fins de semana. Pois é, entre eu e minha consciência há esta relação amigável; ela, não sei por quê, apelidou-me de Jack e eu às vezes a chamo pelo mesmo nome – acho isso legal. Tento lembrá-la, mas parece ser em vão. Também! com tantas mortes de sonhos que se vê por aí, é compreensível que Jack padeça, ela que á um dos poucos resistentes e, portanto, uma verdadeira sonhadora que mantém seus intentos firmes – os de viver uma felicidade supostamente eterna.
Eu e Jack procuramos neste percurso curto de nossas vidas e de nossas memórias achar quando foi que as pessoas consentiram trocar seus sorrisos pelas promessas de um futuro estável. Não achamos exatamente, mas passamos a crer em conseqüências graduais, para fazer jus às nossas soberbas de intelectual. Ei! – diz Jack surpreso por encontrar na memória Cumpade Esteves – Aquele não era o moleque, bom pra caralho!, que era apaixonado pelo Kung Fu? Visualizo-o também e, com uma leve modulação na voz, pois me custa concordar, tendo em vista o que Cumpade Esteves se tornou, digo: Pois é. Veja o que se tornou... um mero filho da puta triste, decerto, cumpridor de horários e... e... acho que é só cumpridor de horários, diz Jack. Alego que não simplesmente e o faço reconsiderar o seu “cumpridor de horários”; qual o problema de assim o ser? Todos nós cumprimos, não? O problema maior, sigo dizendo, é que o sorriso de Cumpade Esteves já não é evidente como outrora sempre fora. Ele já não tem por quê temer o seu futuro, tendo em vista que o tem fechado hermeticamente nas mãos. Sim – diz Jack também com uma modulação na voz, pelo mesmo motivo que o meu – Mas certamente Cumpade Esteves não tem o que lhe faz mais feliz. E o que lhe faz mais feliz? Ora, o Kung Fu, que sempre o fez. E como você tem certeza disso? Não sei bem, quero acreditar que sim para condizer com o argumento deste texto; e também por achar que a tristeza daqueles que têm seus futuros hermeticamente fechados nas mãos são oriundas das memórias felizes de seus passados felizes. Dou uma risada sonora e passo o braço nos ombros de Jack; descemos a ladeira e fomos tomar café.
Jack questiona minhas opções. Tem medo de não conseguirmos nada; e é claro que eu também. Diz para eu continuar firme, acreditando, embora as pessoas tristes – todas as familiares – tentam dizer-me do contrário. Um caralho que vou seguir o exemplo deles! – brada Jack prestes a dar uma golada no seu café frio – Quem disse que tenho? Querem que sejamos tristes, igual a eles? Pensando em uma casa melhor, embora as que têm transborde de ouro? Pensando viajar para Minas, sendo que “Minas não há mais”? Querem um novo amor, por já estarem cansados de suas ricas e lindas esposas? Porra! Qual é a deles? É problema não ser ambicioso e desejar o que lhe satisfaz o espírito? – se é que essa porra existe? E em fim toma seu café, com as palavras ainda fervendo nos olhos. Depois de um tempo, digo: E a consciência, Jack, existe? Ele dá uma risada sonora e passa o braço em meus ombros; descemos a ladeira e fomos tomar outro café, um que eles dizem ser ilegal.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ora dor, ora poucas felicidades

A Solidão é ainda mais amarga quando se acorda, naquelas manhãs de frio, e não há nos lençóis nada além de si mesmo. É aí, então, que o seu corpo parece padecer da falta, que outrora não havia, de um outro corpo, de um outro amor. Assim sendo, acaso não seriam todas as manhãs de frio um belo motivo para lembrar-nos de felicidades conjugais?
Ao longo de sua vida ele soterrou as tristezas que podia; as que não, ficaram expostas em algum canto de seu olhar, à mostra, como se rogasse eternas súplicas para quem quer que as vissem. Fizera-se forte, resistente aos acasos de dor que lhe vinham bater à porta. As Felicidades, por mais que as tivessem, com certa frequência, contudo, duravam não mais que lembranças desinteressantes de um dia comum.
Parecia se contentar, até então, com a solidão, com os frios das manhãs, com as tristezas alojadas nos cantos de seus olhos; tudo como sempre foi, como se acostumou ser. Porém a insistência de suas lembranças - não as dos dias comuns, mas as poucas que vinham acompanhadas de mais alguém - fizeram-se, como tinha de ser, bastante presentes dentre as poucas coisas lembráveis de um dia. Sentia falta dela. Sentia falta das coisas absurdas e únicas que aconteciam na intimidade deles dois. Sentia falta daquele outro alguém que se dispôs a sorrir e chorar com ele, sem que para tanto, houvesse exigências de reciprocidade .
Acaso era realmente necessário tê-la de volta?, ou poderia, como sempre tem feito, colocá-la juntamente com tantas outras tristezas subterradas e esperar a putrefação natural delas? Certamente, isso, era o mais fácil e, digo até, sensato a se fazer. Tendo em vista que acreditava na edificação de seu caráter forte que as dores e tristezas pudera lhe oferecer; mais uma... menos uma... acasos da vida, ora dor, ora poucas felicidades...
Batia-lhe na consciência, não sem antes no coração, a necessidade de um outro alguém, que se fizesse presente nas manhãs de frio e que as felicidades pudesse perdurá-las. Trazia na memória algumas opções, consideráveis até, com direito a tatuagem nas costas ou corpos esculturais; nada além, portanto, de exterioridades admiráveis, e só. Seria possível alguém como ela foi? Talvez não. Decerto que não, mas talvez, ainda, alguém além do que ela foi. Mas isso já fazia parte dos pensamentos ditos, por ele próprio, otimizados, os quais não lhe eram bem vindos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

POEMA PARA ALICE

É assim meio engraçado
meio descompassado
meio errado,
sabe?
Você vem
fecha as cortinas
E sua boca de palavras repentinas
estala como beijos de meninas
em minha nudez fragilizada.
Minha mão meio que esquecida
na tua pele embranquecida
lembra cores de uma manhã amanhecida
- um céu de sol de seios.
Qual é dos teus olhos?
Da tua boca grande?
Do teu sorriso largo?
Do teu cabelo de Sandy?
Qual é da tua liberdade,
libertina?
Você vive com tanta saudade
que nem parece menina.
Qual é da tua juventude
meio torpe de ser?
habitando por aí
sempre querendo comer...
ou ser comido,
Chorando em silêncio
a falta de mais um ser querido?
Qual é dos nossos corpos
sussurrando melodias,
Encerrando noites
e balbuciando poesias?