Eis um fato, meu caro Jack:
Estava eu na universidade...
- Universidade de cu é roala! Interrompeu-me Jack sem variar a expressão neutra de seus olhos rasos, com uma xícara de café prestes a tocar seus lábios.
Sim, sim. Estava eu em uma daquelas aulas, só mesmo por estar, quando derrepente surpreende-me pousando intimamente o braço sobre meu ombro um moleque, meu colega - veja bem que não é amigo. Se posso confiar na memória, diria que nos vimos duas ou três vezes cruzando, ambos apressadamente, os corredores da universidade.
- Universidade de cu é rola!
Sim, sim. Apoiou o braço gentilmente e confortavelmente e ficou a olhar alguma coisa que eu desempenhava que não me lembro bem... ou me lembro e não quero te dizer para não lhe dar motivo de zuar com minha cara.
- Já sei, você estava bolando um beck!
- Não, não.
- Uê? Você não estava na UnB?
Em fim. E aí o moleque ficou olhando, olhando, eu olhando para ele e ele com aquele sorriso que não estava na boca, mas que transbordava pelos olhos. Meio sem jeito e um pouco incomodado perguntei-lhe se lhe agradava o que eu estava a fazer. Disse prontamente que sim e chegou a fazer alguns comentários elogiosos, não a toa para me deixar mais confortável, a final estávamos muito próximos um do outro, sendo que não existia entre nossa relação de colegas nenhuma intimidade, mas, acredito, para contribuir com o que eu desempenhava.
Em uma situação dessas, Jack, creio que a maioria das pessoas, as pessoas que não estão a receber a pressão do toque do amor, falariam por falar, sem realmente considerar o que eu estava a fazer; diferente desse moleque que além de ter me dado uns toques de como melhorar o meu trabalho elogiou o que não precisava melhorar.
- O moleque estava sobre a pressão do toque do amor?
Sim. E eu nem desconfiava. Fui saber muito depois quando a aula terminou e ficamos a conversar sobre a vida embaixo de um céu pobre e escuro. Insisto em dizer que o moleque era apenas meu colega, não amigo; apenas o vi algumas vezes nos corredores da Univer...
Jack já ageitava os lábios para dizer sua frase de rotina. Interrompendo a minha, não lhe dei chance para dize-la.
- Então o grande lance disso tudo é...? - Falou com certa impaciência esperando a resposta e soltando pelo nariz uma forte rajada de ar que eu pensava trazer impurezas já que era bastante ruidosa.
O grande lance, Jack, é que o amor transforma as pessoas! O grande lance é que o amor faz coisas com os apaixonados que nada poderia fazer igual.
- Nem a maconha?
Nada! O grande lance é que o amor evita guerras, evita o ódio, evita o demônio, cara! Era um moleque que eu nem conhecia... era daquele tipo de pessoas que só temos conhecimento pois em algum momento da vida, que refutamos gravar na memória, cumprimentamos de passagem nos corredores; e aí ele me vem apoiar o braço no meu ombro e puxar conversa? Poxa! O moleque devia estar muito feliz. Muito feliz para quebrar todas as frias formalidades, cruzar um espaço considerável para chegar a mim, aproximar de mim, e bem perto, apoiar o braço sobre meu ombro e ali ficar por muito tempo - tendo em vista que não tínhamos nenhuma intimidade, então foi muito tempo.
- É... a paixão é pra poucos... Admiro esse moleque. Se existem pessoas, como eu, que vivem em busca da lombra eterna, outras, como esse moleque aí, já a encontraram. O amor é a maior das lombras. Estar apaixonado é a brisa mais forte já sentida.
Então! O foda é que o moleque insistiu na felicidade, a fez durar enquanto ainda havia dia, conversando comigo, só nós dois, ao final da aula.
- Embaixo de um céu pobre e escuro?
Sim! Ficamos conversando por muito tempo. Ele me falando de coisas que certamente eu não falaria a um colega cujas relações não passavam de escassos cumprimentos em corredores. Coisas de sua vida, coisas íntimas, sabe? E eu a ouvi-lo atentamente impressionando-me cada vez mais com sua sinceridade. Ele se empenhava em me contar as coisas, parecia empolgado demais por estar vivo; a felicidade não lhe cabia, era necessário dividi-la com as pessoas sortudas que o rodeavam e eu, por acaso, era uma delas.
Tudo se fez mais claro, Jack, quando ele recebeu uma ligação e de sua boca risonha e branca ouço "amor". Aí, então tudo fez sentido.
- Caralho..!
Pois é. Depois de um tempo um carro chega e ele diz que tem que ir. Ele se afasta e tenho a impressão de que está pulando de alegria, mas é só impressão mesmo.
- Você tinha fumado?
Não, pô. Ele chega perto do carro e dele desce um cara alto, magro, bem arrumado que lhe beija a boca.
- Ah! o moleque era gay!
Sim. Os dois entram no carro e vão embora tendo como trilha Give me all you luvin da Madonna.
- Pois é... como eu disse a paixão é pra poucos... Diria que atualmente só pros gays. O relacionamento hétero é uma coisa falida, sabia?. As mulheres já não aceitam simplesmente abrir suas bucetas permitindo a entrada de um pau, preferem que sejam acariciadas por uma língua, de preferência feminina.
Isso é porque você está andando muito com esse povo da UnB, Jack.
- Você acha?
Sim.
Embora esperasse que dissesse algo, Jack apenas deu aos olhos um caráter perdido e aproximou sua xícara aos lábios.
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