domingo, 5 de fevereiro de 2012

Jack e Eu

O tempo está se esgotando, Jack – é o que a minha consciência pesarosa costuma me dizer – estamos ficando sem opções e, mais ainda, sem dinheiro. Tento pensar em outras coisas, lembrá-la de que optei por uma felicidade supostamente eterna e não por uma escassa de fim de semana, se é que realmente poderão existir nos fins de semana. Pois é, entre eu e minha consciência há esta relação amigável; ela, não sei por quê, apelidou-me de Jack e eu às vezes a chamo pelo mesmo nome – acho isso legal. Tento lembrá-la, mas parece ser em vão. Também! com tantas mortes de sonhos que se vê por aí, é compreensível que Jack padeça, ela que á um dos poucos resistentes e, portanto, uma verdadeira sonhadora que mantém seus intentos firmes – os de viver uma felicidade supostamente eterna.
Eu e Jack procuramos neste percurso curto de nossas vidas e de nossas memórias achar quando foi que as pessoas consentiram trocar seus sorrisos pelas promessas de um futuro estável. Não achamos exatamente, mas passamos a crer em conseqüências graduais, para fazer jus às nossas soberbas de intelectual. Ei! – diz Jack surpreso por encontrar na memória Cumpade Esteves – Aquele não era o moleque, bom pra caralho!, que era apaixonado pelo Kung Fu? Visualizo-o também e, com uma leve modulação na voz, pois me custa concordar, tendo em vista o que Cumpade Esteves se tornou, digo: Pois é. Veja o que se tornou... um mero filho da puta triste, decerto, cumpridor de horários e... e... acho que é só cumpridor de horários, diz Jack. Alego que não simplesmente e o faço reconsiderar o seu “cumpridor de horários”; qual o problema de assim o ser? Todos nós cumprimos, não? O problema maior, sigo dizendo, é que o sorriso de Cumpade Esteves já não é evidente como outrora sempre fora. Ele já não tem por quê temer o seu futuro, tendo em vista que o tem fechado hermeticamente nas mãos. Sim – diz Jack também com uma modulação na voz, pelo mesmo motivo que o meu – Mas certamente Cumpade Esteves não tem o que lhe faz mais feliz. E o que lhe faz mais feliz? Ora, o Kung Fu, que sempre o fez. E como você tem certeza disso? Não sei bem, quero acreditar que sim para condizer com o argumento deste texto; e também por achar que a tristeza daqueles que têm seus futuros hermeticamente fechados nas mãos são oriundas das memórias felizes de seus passados felizes. Dou uma risada sonora e passo o braço nos ombros de Jack; descemos a ladeira e fomos tomar café.
Jack questiona minhas opções. Tem medo de não conseguirmos nada; e é claro que eu também. Diz para eu continuar firme, acreditando, embora as pessoas tristes – todas as familiares – tentam dizer-me do contrário. Um caralho que vou seguir o exemplo deles! – brada Jack prestes a dar uma golada no seu café frio – Quem disse que tenho? Querem que sejamos tristes, igual a eles? Pensando em uma casa melhor, embora as que têm transborde de ouro? Pensando viajar para Minas, sendo que “Minas não há mais”? Querem um novo amor, por já estarem cansados de suas ricas e lindas esposas? Porra! Qual é a deles? É problema não ser ambicioso e desejar o que lhe satisfaz o espírito? – se é que essa porra existe? E em fim toma seu café, com as palavras ainda fervendo nos olhos. Depois de um tempo, digo: E a consciência, Jack, existe? Ele dá uma risada sonora e passa o braço em meus ombros; descemos a ladeira e fomos tomar outro café, um que eles dizem ser ilegal.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ora dor, ora poucas felicidades

A Solidão é ainda mais amarga quando se acorda, naquelas manhãs de frio, e não há nos lençóis nada além de si mesmo. É aí, então, que o seu corpo parece padecer da falta, que outrora não havia, de um outro corpo, de um outro amor. Assim sendo, acaso não seriam todas as manhãs de frio um belo motivo para lembrar-nos de felicidades conjugais?
Ao longo de sua vida ele soterrou as tristezas que podia; as que não, ficaram expostas em algum canto de seu olhar, à mostra, como se rogasse eternas súplicas para quem quer que as vissem. Fizera-se forte, resistente aos acasos de dor que lhe vinham bater à porta. As Felicidades, por mais que as tivessem, com certa frequência, contudo, duravam não mais que lembranças desinteressantes de um dia comum.
Parecia se contentar, até então, com a solidão, com os frios das manhãs, com as tristezas alojadas nos cantos de seus olhos; tudo como sempre foi, como se acostumou ser. Porém a insistência de suas lembranças - não as dos dias comuns, mas as poucas que vinham acompanhadas de mais alguém - fizeram-se, como tinha de ser, bastante presentes dentre as poucas coisas lembráveis de um dia. Sentia falta dela. Sentia falta das coisas absurdas e únicas que aconteciam na intimidade deles dois. Sentia falta daquele outro alguém que se dispôs a sorrir e chorar com ele, sem que para tanto, houvesse exigências de reciprocidade .
Acaso era realmente necessário tê-la de volta?, ou poderia, como sempre tem feito, colocá-la juntamente com tantas outras tristezas subterradas e esperar a putrefação natural delas? Certamente, isso, era o mais fácil e, digo até, sensato a se fazer. Tendo em vista que acreditava na edificação de seu caráter forte que as dores e tristezas pudera lhe oferecer; mais uma... menos uma... acasos da vida, ora dor, ora poucas felicidades...
Batia-lhe na consciência, não sem antes no coração, a necessidade de um outro alguém, que se fizesse presente nas manhãs de frio e que as felicidades pudesse perdurá-las. Trazia na memória algumas opções, consideráveis até, com direito a tatuagem nas costas ou corpos esculturais; nada além, portanto, de exterioridades admiráveis, e só. Seria possível alguém como ela foi? Talvez não. Decerto que não, mas talvez, ainda, alguém além do que ela foi. Mas isso já fazia parte dos pensamentos ditos, por ele próprio, otimizados, os quais não lhe eram bem vindos.