Ao longo de sua vida ele soterrou as tristezas que podia; as que não, ficaram expostas em algum canto de seu olhar, à mostra, como se rogasse eternas súplicas para quem quer que as vissem. Fizera-se forte, resistente aos acasos de dor que lhe vinham bater à porta. As Felicidades, por mais que as tivessem, com certa frequência, contudo, duravam não mais que lembranças desinteressantes de um dia comum.
Parecia se contentar, até então, com a solidão, com os frios das manhãs, com as tristezas alojadas nos cantos de seus olhos; tudo como sempre foi, como se acostumou ser. Porém a insistência de suas lembranças - não as dos dias comuns, mas as poucas que vinham acompanhadas de mais alguém - fizeram-se, como tinha de ser, bastante presentes dentre as poucas coisas lembráveis de um dia. Sentia falta dela. Sentia falta das coisas absurdas e únicas que aconteciam na intimidade deles dois. Sentia falta daquele outro alguém que se dispôs a sorrir e chorar com ele, sem que para tanto, houvesse exigências de reciprocidade .
Acaso era realmente necessário tê-la de volta?, ou poderia, como sempre tem feito, colocá-la juntamente com tantas outras tristezas subterradas e esperar a putrefação natural delas? Certamente, isso, era o mais fácil e, digo até, sensato a se fazer. Tendo em vista que acreditava na edificação de seu caráter forte que as dores e tristezas pudera lhe oferecer; mais uma... menos uma... acasos da vida, ora dor, ora poucas felicidades...
Batia-lhe na consciência, não sem antes no coração, a necessidade de um outro alguém, que se fizesse presente nas manhãs de frio e que as felicidades pudesse perdurá-las. Trazia na memória algumas opções, consideráveis até, com direito a tatuagem nas costas ou corpos esculturais; nada além, portanto, de exterioridades admiráveis, e só. Seria possível alguém como ela foi? Talvez não. Decerto que não, mas talvez, ainda, alguém além do que ela foi. Mas isso já fazia parte dos pensamentos ditos, por ele próprio, otimizados, os quais não lhe eram bem vindos.

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