domingo, 19 de julho de 2020

poema para o fim da quarentena


Ao fim de tudo,
se ausculta ao longe
o desmantelo da concupiscente humanidade
o arrefecimento gradual da rotineira maldade
 a dissolução intrínseca de nossa artificialidade.

E toda significância impregnada de sentido
que, na rotineira existência, antes, não havido,
será inerente ao nosso hábito adquirido
de reciprocamente amar,
ao fim de tudo.

A lógica cômoda dos acontecimentos rudes
que prioriza o ego e aos justos aturde
sistematizando a vida amiúde,
ao fim de tudo,
será de todo ultrapassada.

Ao fim de tudo
os mandantes do mundo padecerão
de efusiva calmaria interior
e florescerão límpidas empatias de flor
e de perdão
na profundeza murcha do coração.

Ao fim de tudo,
o reaprendizado da consciência
despojada de aparência
e excessos;
vibraremos na inocência
da ontológica clemência,
perplexos.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Sem título

Um chiste uma preza de prazer á prazo um algo a mais no cotidiano de felicidades conjugais e fugaz, meu rapaz. Uma aleatoriedade de sacanagem somente bobagem fruto de muita viajem e despersao ou talvez nao, meu irmao. Ou somente intuição mistificada de ilusão. Na real, peço perdão ja que tudo é acaso no cotidiano de pagamentos à prazo em que nem uma preza se empresta ao prazer de se ousar ser. Mas pra que tanto querer? estando o querido por vezes esquecido e resolvido a emudecer? E se pululam nos oividos outros quereres aquiecidos de manhã. Um pedido de perdão, agachado, sem se mostrar falando do ar do mar do desmistificar. Do abraçar. Do se soltar. Um espurgo de intimidade criativa na iniciativa de se ser. E padecer no pensamento o intento nojento do tormento receio que um dia no recreio veio entre veias mostrar suas feias características, meio misticas meio artísticas. Uma exposiçao de mim aqui no meio sem freio no veio do buraco que ha em mim, miudim, mas sem fim até o além. E há quem negue de si tal infinitude, alienado, amiúde, no contento de dentro de si de ali de aqui de qualquer lugar que possa dar um bom estar aparente inconsequente dormente. Um erro crasso é mao saber-se no buraco nao perceber-se fraco sobrepor-se a um macaco. É opaco, o desconhecido que foi esquecido subtraído do vivido que já foi da vida. Ah minha amiga..! esta lida esquecida é sem porquê nem pra quê. sem prazer sem chover sem foder sem viver... E toda quentura da espessura do mundo é minha ventura que dá alvura a tudo aqui no fundo. Ao que se desconhece ao que se enlouquece ao que sempre se arrefece em parcelas deglutiveis de compreensão de involução de descivilizaçao. E todo pulsar verdadeiro é tipo o triunfar de um guerreiro que me faz ir e sorrir e sucumbir e dormir e morrer.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

bitelas fragilizadas

Havia, involuntariamente, em seus joelhos uma concessão constante de dor. Por vezes, suas passadas miúdas e fragilizadas não correspondiam à necessidade de sua pressa porque a vacilação involuntária de seus joelhos, que como desistidos da caminhada, sucumbiam ao peso de sua existência maculada pelo destino. Dera-lhe, o destino, duas precárias articulações que, com o ir-se do tempo, acabavam-se por si mesmas; sem que houvessem precauções para prevenir ou remediar sua permanente circunstancia dolorosa. E tudo mais eram aceitação e conformidade. Acontecera-lhe, involuntariamente, de vir ao mundo com tal constituição cartilaginosa, frágil como os seus olhos coloridos; frágil como o seu respirar empecilhado. Foi-lhe instituído sentir dor permanentemente, sem que as remediações necessárias lhe fizessem algum efeito de cura ou alívio. Se ocasionalmente lhe desenhasse um simulacro de riso na face era devido à boa educação que recebera para com os outros, para com as visitas, para consigo mesma não. E tudo mais era dormência social e aceitação. Concluía de sua dor algo como uma determinação do destino que, apesar de tudo, fizera-a forte, capaz de grandes sofrimentos; de grandes aceitações do hábito de doer-se enquanto se existe. Como se a normalidade de seu bem fosse a continuidade latente e dolorosa do seu escasseamento cartilaginoso. E tudo mais era o findar-se de tudo e de todos. Havia muita fragilidade, também, na claridade de seus olhos coloridos para a demasia do fardo que lhe fora impugnado. O acumulo de dores nas articulações fragilizadas fê-la triste; fê-la consciente de sua consciência dolorosa. Restava-lhe sentir. Restava-lhe ser. E o curso dos acontecimentos seguia indiferentemente à tudo. O singelo brilhar de seus frágeis olhos coloridos, muito rapidamente até, ia perdendo a resplandecência, tal qual um fio frágil de riacho poluído e seco que a mácula da desumanidade fora pondo termo. E tudo mais eram tristeza e resistência até não se poder. O cansaço de não morrer se acumulava na matéria frágil dos seus olhos coloridos até escorrer pela sua face macia, traçando dois fartos rastros de água e sal. Era o silêncio frágil e doloroso tomando forma na sua incapacidade de se conter dentro de seu peito. E tudo mais eram silêncio e irrelevância. Por vezes, escorria de sua boca o jorro seco da raiva que se espalhava para tudo e todos; uma profusão de descontentamentos de não se caber na língua nem no coração. E todos os motivos eram julgados. E todos os humanos eram culpados. E a rede de seus olhos fragilizados e coloridos iam ganhando peso e cor - a cor morta da pele sem vida e funda. E tudo mais eram máscaras e maquiagens. Tudo nela era dor e saudade. Respirava com o empecilho do espinho em seu peito. O ódio que lhe escorria a língua tomava entumecidas formas no cotidiano dos seres insensíveis. A tudo e todos destinava o jorro quente do seu descontentamento. Dentro de si era tormenta bruta, mas fora de si era um marasmo de indiferença indiferente. E tudo mais eram dinheiro e cartões de crédito. Se houvessem justificativas e motivos justificados... mas por que logo com ela? Ela, que era tão dispostamente boa, cumpridora de todas as afabilidades sociais; ela, que dava ao universo a sua parcela de gratidão e mais outras tantas de contribuição; ela, que carregava até suas casas os amigos e não amigos; ela, sempre partidária das brigas alheias de infundadas justiças; que vertia da fragilidade de seus coloridos olhos tamanha umidescencia pelo desamparo de cães; que existia concomitantemente ao impulso de morte; ela que esperava, ainda que sua vontade fosse ir embora; ela que sofria; ela que era ela. E tudo mais era sem explicação e sem poesia. Certa vez, quando na fermentação subjugada dos homens pelo Sol, ela sucumbe às lancinantes dores de suas cartilagens desfeitas e prostra-se em uma solidão só sua, pondo-se a sonhar de olhos abertos, pondo-se a chorar de olhos abertos. E visualiza no devaneio diáfano de seu escapismo um alívio há muito ausente: Diz-se que havia sofrido comprometedor acidente de carro cuja potencia brutal da fúria dos acontecimentos levara de si os movimentos das pernas para nunca mais. Nisso, as ponderações de clemência das poucas pessoas próximas logo se fizeram demasiadamente clementes: "- mas, menina, como viera a lhe acontecer??" '- mas por que logo com você, menina??" '- Coitadinha dela, não merecia; ela era tão feliz..." "- ela que era tão educada e alegre" "- Ela que era tão saudável; e tanta vontade de viver..." Mas ela, a menina de olhos frágeis e joelhos doloridos, que prosseguia com os olhos abertos e coloridos formando imagens involuntárias, revidou todos eles com o tom mais brando e úmido que conseguira achar nos ermos recônditos de seu seco coração: - Ta tudo bem, gente... Pelo menos não sinto mais dores nos joelhos... E pôs-se a sorrir aliviada na afabilidade de sua solidão sonhada. E tentando dar prosseguimento ao que não havia, forcejou o cerrar de suas pálpebras fragilizadas, expulsando de seu olho direito uma espessa lágrima de saudade do que não viveu e de sal.

domingo, 5 de novembro de 2017

o beijo da pálpebra é uma piscadinha

domingo, 12 de julho de 2015

quase trinta anos

o resumo dos dois era aquilo ali mesmo, na astaticidade imanente das memórias. Musicas nostálgicas rolavam por detrás, pungindo, uma após outra. A cerveja ainda os mantinha conformados perante tudo. Inevitavelmente perceberam-se velhos por demais. Sem saída. Depois de uma intensidade frequente de risos e despropósitos, foi aquilo ali que restou. Sem juventude nos corpos. Sem alento nos corações. Tudo que se havia era o passado discorrendo solto na memória, na ponta dos dedos, nos sorrisos esmaecidos. Vez ou outra, os olhos rasteiros, fixos no silêncio da falta. Comumente, o silêncio - a contenção própria da experiência - latejando no espaço recluso da noite sozinha. "Estamos ficando velhos", um disse. O outro assentiu com a conformidade própria do entorpecimento. Mas quando o amanhã se fez encorpar no espaço recluso do dia, voltaram aos seus quase trinta anos.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Jack e Eu em O dispêndio de amar

Não estava com suficiente disponibilidade de espírito para fazer parceirice com Jack em um compromisso lá dele. Mas por ceder facilmente quando sob pressão e não ter uma personalidade suficientemente forte para dizer não, acabei indo. Enquanto caminhávamos absorvendo os barulhos e ventos dos carros passantes, contou-me dos seus fartos e promíscuos casos de amor. - Eram de amor, se pá... Ainda são de amor. Sei lá... - disse ele de olhar rasteiro e desimportante. - Mas Jack! - eu, estupefato - Você não se apega à elas? Você não as ama? - Não me apego, mas as amo. Amar ou não amar é pura questão de escolha. Sofrer ou não sofrer, tá ligado? - E aí puxou um catarro ruidoso da guéla expelindo-o ao acaso com bastante propulsão - Rola uma tristeza, uma saudade de curta ponta aguda quando me distancio delas; mas se liga, amá-las até a estabilidade da rotina é mais dispendioso do que qualquer tristeza, do que qualquer saudade. Disse ele com menosprezo do seu próprio sentimento de desolação, retendo nos bolsos as mãos. - Mas e aí, pô? - Eu com atenção no seu ensimesmar ensimesmado. - E aí o quê? - Tu vive assim? Tu vive só? Pra sempre? Perdendo as oportunidades de fazer perdurar um amor? - Qual o problema? Amar é muito dispendioso, mano. As vezes não vale a pena. Poucas vezes, na verdade, valem a pena. Olhou para o céu e pareceu querer encontrar algo nele. Deduzi que fosse uma resposta qualquer. E continuou: E outra, uma vez que se perde o grande amor da vida, qualquer coisa que se venha a perder depois disso é qualquer coisa que se venha a perder, saca? Seus passos ficaram curtos, parou, olhou o céu de maneira mais desimportante e começou a voltar. - Ué?!Mas e o teu compromisso? - perguntei. - Esse era o meu compromisso. Dá um rolê e por vezes olhar o céu. E seguimos na volta. Ele, com as mesmas mãos nos bolsos, os mesmos passos curtos e a mesma ensimesmação lá dele.

domingo, 29 de março de 2015

Oxe! Tem mais é que se viver

O costume de gente cisma em ser um só. Sem vario de ideias. O povo vai se agarrando ao bocado pouco que se aprende a depender. Aí é de toda sorte a querência pobre da gente: desde do escutar constante e repetido da cantiga que se apraz, até a batição de prosa que corresponda ao proceder de suas vidas cheias de preconceito, de denotações e de riquezas descabidas. Parece até que as discrepâncias são de todo rejeitadas, preconceituadas; porque são temidas. Se disse já que tudo que é da alçada do novo, do inaudito, causa naqueles já estabelecidos toda sorte de temor. Aí se vai levando o viver pelas veredas mesmas que as pernas se doutrinaram caminhar. Ah!, pois, este mundo véi escamoteia a largo as belezas todas que nossos olhos nem se atreveram tocar, que nossos ouvidos nem escutaram... e que nossas ideias nem sonharam conceber. Acho mesmo é que tá aí o propósito constante do viver: desgarrar por aí sem temência de medo, de desconhecido. Porque se não carecia da gente se estacar único na nossa ignorância confinada, igual bicho de curral. Tem mais é que se ir. Tem mais é que se viver.