Havia, involuntariamente, em seus joelhos uma concessão constante de dor. Por vezes, suas passadas miúdas e fragilizadas não correspondiam à necessidade de sua pressa porque a vacilação involuntária de seus joelhos, que como desistidos da caminhada, sucumbiam ao peso de sua existência maculada pelo destino. Dera-lhe, o destino, duas precárias articulações que, com o ir-se do tempo, acabavam-se por si mesmas; sem que houvessem precauções para prevenir ou remediar sua permanente circunstancia dolorosa. E tudo mais eram aceitação e conformidade.
Acontecera-lhe, involuntariamente, de vir ao mundo com tal constituição cartilaginosa, frágil como os seus olhos coloridos; frágil como o seu respirar empecilhado. Foi-lhe instituído sentir dor permanentemente, sem que as remediações necessárias lhe fizessem algum efeito de cura ou alívio. Se ocasionalmente lhe desenhasse um simulacro de riso na face era devido à boa educação que recebera para com os outros, para com as visitas, para consigo mesma não. E tudo mais era dormência social e aceitação.
Concluía de sua dor algo como uma determinação do destino que, apesar de tudo, fizera-a forte, capaz de grandes sofrimentos; de grandes aceitações do hábito de doer-se enquanto se existe. Como se a normalidade de seu bem fosse a continuidade latente e dolorosa do seu escasseamento cartilaginoso. E tudo mais era o findar-se de tudo e de todos.
Havia muita fragilidade, também, na claridade de seus olhos coloridos para a demasia do fardo que lhe fora impugnado. O acumulo de dores nas articulações fragilizadas fê-la triste; fê-la consciente de sua consciência dolorosa. Restava-lhe sentir. Restava-lhe ser. E o curso dos acontecimentos seguia indiferentemente à tudo.
O singelo brilhar de seus frágeis olhos coloridos, muito rapidamente até, ia perdendo a resplandecência, tal qual um fio frágil de riacho poluído e seco que a mácula da desumanidade fora pondo termo. E tudo mais eram tristeza e resistência até não se poder.
O cansaço de não morrer se acumulava na matéria frágil dos seus olhos coloridos até escorrer pela sua face macia, traçando dois fartos rastros de água e sal. Era o silêncio frágil e doloroso tomando forma na sua incapacidade de se conter dentro de seu peito. E tudo mais eram silêncio e irrelevância.
Por vezes, escorria de sua boca o jorro seco da raiva que se espalhava para tudo e todos; uma profusão de descontentamentos de não se caber na língua nem no coração. E todos os motivos eram julgados. E todos os humanos eram culpados. E a rede de seus olhos fragilizados e coloridos iam ganhando peso e cor - a cor morta da pele sem vida e funda. E tudo mais eram máscaras e maquiagens.
Tudo nela era dor e saudade. Respirava com o empecilho do espinho em seu peito. O ódio que lhe escorria a língua tomava entumecidas formas no cotidiano dos seres insensíveis. A tudo e todos destinava o jorro quente do seu descontentamento. Dentro de si era tormenta bruta, mas fora de si era um marasmo de indiferença indiferente. E tudo mais eram dinheiro e cartões de crédito.
Se houvessem justificativas e motivos justificados... mas por que logo com ela? Ela, que era tão dispostamente boa, cumpridora de todas as afabilidades sociais; ela, que dava ao universo a sua parcela de gratidão e mais outras tantas de contribuição; ela, que carregava até suas casas os amigos e não amigos; ela, sempre partidária das brigas alheias de infundadas justiças; que vertia da fragilidade de seus coloridos olhos tamanha umidescencia pelo desamparo de cães; que existia concomitantemente ao impulso de morte; ela que esperava, ainda que sua vontade fosse ir embora; ela que sofria; ela que era ela. E tudo mais era sem explicação e sem poesia.
Certa vez, quando na fermentação subjugada dos homens pelo Sol, ela sucumbe às lancinantes dores de suas cartilagens desfeitas e prostra-se em uma solidão só sua, pondo-se a sonhar de olhos abertos, pondo-se a chorar de olhos abertos. E visualiza no devaneio diáfano de seu escapismo um alívio há muito ausente: Diz-se que havia sofrido comprometedor acidente de carro cuja potencia brutal da fúria dos acontecimentos levara de si os movimentos das pernas para nunca mais. Nisso, as ponderações de clemência das poucas pessoas próximas logo se fizeram demasiadamente clementes: "- mas, menina, como viera a lhe acontecer??" '- mas por que logo com você, menina??" '- Coitadinha dela, não merecia; ela era tão feliz..." "- ela que era tão educada e alegre" "- Ela que era tão saudável; e tanta vontade de viver..."
Mas ela, a menina de olhos frágeis e joelhos doloridos, que prosseguia com os olhos abertos e coloridos formando imagens involuntárias, revidou todos eles com o tom mais brando e úmido que conseguira achar nos ermos recônditos de seu seco coração:
- Ta tudo bem, gente... Pelo menos não sinto mais dores nos joelhos...
E pôs-se a sorrir aliviada na afabilidade de sua solidão sonhada. E tentando dar prosseguimento ao que não havia, forcejou o cerrar de suas pálpebras fragilizadas, expulsando de seu olho direito uma espessa lágrima de saudade do que não viveu e de sal.