O tempo está se esgotando, Jack – é o que a minha consciência pesarosa costuma me dizer – estamos ficando sem opções e, mais ainda, sem dinheiro. Tento pensar em outras coisas, lembrá-la de que optei por uma felicidade supostamente eterna e não por uma escassa de fim de semana, se é que realmente poderão existir nos fins de semana. Pois é, entre eu e minha consciência há esta relação amigável; ela, não sei por quê, apelidou-me de Jack e eu às vezes a chamo pelo mesmo nome – acho isso legal. Tento lembrá-la, mas parece ser em vão. Também ! com tantas mortes de sonhos que se vê por aí, é compreensível que Jack padeça, ela que á um dos poucos resistentes e, portanto, uma verdadeira sonhadora que mantém seus intentos firmes – os de viver uma felicidade supostamente eterna.
Eu e Jack procuramos neste percurso curto de nossas vidas e de nossas memórias achar quando foi que as pessoas consentiram trocar seus sorrisos pelas promessas de um futuro estável. Não achamos exatamente, mas passamos a crer em conseqüências graduais, para fazer jus às nossas soberbas de intelectual. Ei! – diz Jack surpreso por encontrar na memória Cumpade Esteves – Aquele não era o moleque, bom pra caralho!, que era apaixonado pelo Kung Fu? Visualizo-o também e, com uma leve modulação na voz, pois me custa concordar, tendo em vista o que Cumpade Esteves se tornou, digo: Pois é. Veja o que se tornou... um mero filho da puta triste, decerto, cumpridor de horários e... e... acho que é só cumpridor de horários, diz Jack. Alego que não simplesmente e o faço reconsiderar o seu “cumpridor de horários”; qual o problema de assim o ser? Todos nós cumprimos, não? O problema maior, sigo dizendo, é que o sorriso de Cumpade Esteves já não é evidente como outrora sempre fora. Ele já não tem por quê temer o seu futuro, tendo em vista que o tem fechado hermeticamente nas mãos. Sim – diz Jack também com uma modulação na voz, pelo mesmo motivo que o meu – Mas certamente Cumpade Esteves não tem o que lhe faz mais feliz. E o que lhe faz mais feliz? Ora, o Kung Fu, que sempre o fez. E como você tem certeza disso? Não sei bem, quero acreditar que sim para condizer com o argumento deste texto; e também por achar que a tristeza daqueles que têm seus futuros hermeticamente fechados nas mãos são oriundas das memórias felizes de seus passados felizes. Dou uma risada sonora e passo o braço nos ombros de Jack; descemos a ladeira e fomos tomar café.
Jack questiona minhas opções. Tem medo de não conseguirmos nada; e é claro que eu também. Diz para eu continuar firme, acreditando, embora as pessoas tristes – todas as familiares – tentam dizer-me do contrário. Um caralho que vou seguir o exemplo deles! – brada Jack prestes a dar uma golada no seu café frio – Quem disse que tenho? Querem que sejamos tristes, igual a eles? Pensando em uma casa melhor, embora as que têm transborde de ouro? Pensando viajar para Minas, sendo que “Minas não há mais”? Querem um novo amor, por já estarem cansados de suas ricas e lindas esposas? Porra! Qual é a deles? É problema não ser ambicioso e desejar o que lhe satisfaz o espírito? – se é que essa porra existe? E em fim toma seu café, com as palavras ainda fervendo nos olhos. Depois de um tempo, digo: E a consciência, Jack, existe? Ele dá uma risada sonora e passa o braço em meus ombros; descemos a ladeira e fomos tomar outro café, um que eles dizem ser ilegal.

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