segunda-feira, 13 de agosto de 2012
CLARO
- Isso que você tá me dizendo não teria sentido ou importância caso me fosse dito alguns dias depois de hoje. - Disse-me Jack sustentando uma xícara de cappuccino próximo aos lábios, deixando seus olhos envoltos pela fumaça quente da bebida.
- Você acha?
- Ochi! Mais é claro, porra!
Não lhe disse nada de mais. Só lhe contei a respeito dela. Perguntei-lhe, com uma leve pretensão de lhe dizer o enorme encantamento que tive, quantas mulheres ele já conheceu que tinham um perfume próprio.
- Algumas - Disse ele deixando a xícara sobre a mesa e abrindo o peito apoiando os braços na cadeira - Principalmente prostitutas do Setor O. Mas essas não tinham cheiros agradáveis...
- Essa mina, Jack, não cheira Boticário, nem Nívea, nem nada. Ela tem o próprio cheiro! Já imaginou isso? Feito a partir de sua personalidade.
- Personalidade?
- É. Personalidade... de sua pessoa, saca? Um cheiro sereno e silencioso; diferente de seu sorriso ligeiro e bem formado.
- Só... - Disse Jack soltando uma forte rajada de ar pelo nariz, tão forte que lhe foi inevitável conter algumas impurezas acumuladas pelos dias secos e tristes de agosto.
Disse a Jack que todas as palavras dela pareciam me remeter a uma espécie de felicidade eterna. Costumava intervir sorrisos repentinos em seus raciocínios elaborados, como se todas as coisas derrepente virassem brincadeira e a vida derrepente valesse a pena.
- Uma certa vez ele me disse que teríamos de levar a vida brincando. Sempre!
- Ochi! Quantos anos ela tem?
- Não se trata de idade, Jack.
- Já tenho muitos amigos pedófilos. Mais um é foda.
- É apenas uma maneira alternativa de encarar a realidade, pô!
Disse também a Jack que era debaixo de prédios e estrelas apagadas que nossas mãos temerosas costumavam se tocar, mantando entre elas o meu calor pesado e a sua leveza de perfume próprio. Jack alertou-me sobre o amor ou algo do tipo e disse-me que o frio da beira do Lago trazia, aos seus contempladores - ou pelo menos a um deles, um sentimento largo e remanescente que causaria dor pela sua indefinição e expectativa. Disse que sim, não sem antes ensimesmar-me em sua afirmação.
- Ela brinca, Jack! Ela lê Shakespeare no original! Ela sorri! Assim por gosto ou por prazer, ainda que se possa ver lágrimas em seus olhos.
- Cabuloso! Talvez tenha alguma coisa no cabelo dela...
- Ela acaricia o meu coração, sorrindo é claro, e joga fora com um estalo de dedos as escuridões que encontrou lá dentro. Me sinto bem e a agradeço, ancioso por poder retribuir, mas não consigo.
- Aí que tá! todo o bem que vem dela é de graça! Não se paga por ele, entende? Defícil entender, né? Que merda você é muito mal! Talvez tenha alguma coisa no cabelo dela...
- É. Sou. Mas tô tentando mudar. Ela disse que era possível...
- Sei... - E deu mais uma golada no seu cappuccino já sem fumaça - Talvez tenha alguma coisa no cabelo dela...
O dia foi morrendo sem que percebêssemos e Jack não tirava os olhos do sol que desaparecia. Lembrei-me da escuridão lenta que tomou os verdes do povoado de São Jorge, nos tempos em que me permiti apaixonar.
- É... É assim mesmo... A vida vem a vida vai! - Disse Jack desviando seus olhos fatigados para a xícara vazia - Tudo é muito absurdo. Agente deixa que as coisas fiquem sérias de mais, aí já era...
- Engraçado, ela me falou sobre isso também.
Jack levantou-se apressadamente e saiu. Sem pagar o cappuccino. Acompanhei-o e demos os braços subindo, exaustos, a ladeira. Andamos em silêncio e a vida parecia ser triste.
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