segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ride my bicycle

Pude receber o vento frio das planícies nubladas. A boca aberta tomava formas desordenadas que o vento propunha. Só, nas recentes pistas de caminhada que envolviam uma recente verde área cheia de cheiros e expectativas... quem sabe saísse dali pessoa de má intenção? Ainda mais tendo eu visto resquícios de gente no gramado molhado... Só, com minha bike, compartilhando, ou tentando, as pistas infinitas com os carros. Carros, não pessoas, que talvez nunca poderiam estar sozinhas como eu estava; que talvez não poderiam sorrir, como eu estava. Digamos que a felicidade é para os poucos, para os poucos, que diferente dos muitos, pouco desejam. Derrepente ir pelo menos em uma rotina de quantidade desdiz todo o alienamento capitalista. Por um instante a liberdade existe, toda palpável e cheirosa e bonita e tantas poucas coisas nos meus bolsos e na minha mochila rasgada... Podendo haver quem diga o contrário, lógico, subterrando manifestas felicidades simplórias unicamente para impedir a proliferação de uma felicidade não rentável. O que seriam das concessionárias caso seus consumidores descobrissem que de fato não precisam delas? Alí, com o vento na cara e o pedal sobre os pés não poderia haver ódio, lágrimas, rejeições. O que não pensar da existência?: que sua durabilidade tem de se fazer preponderantemente de felicidades; que a tristeza não existe já que existem todas as coisas compráveis para extinguí-la. Foda! Ali, com o sorriso na boca e a música no peito, o momento – curto que seja – existia e nada mais. Perfeitamente bastante! O que não viver na vida?: O momento que ainda não existe; a futura tristeza de futuros prazos vencidos e recalculados em juros; o futuro reajustado com todas as coisas cujas posses são indispensáveis – como nos fizeram crer. Pode ser que a solidão de um homem não o faça gastar tanto quanto se estivesse na companhia de outros, talvez seja por isso que o sorriso só, a felicidade solitária, os risos altos deixados nos ventos cortados pela deslizar da bicicleta e não escutados por ninguém sejam considerados insanos. “Eis ali um louco que consegue tirar de sua solidão e do pedalar sem caminho a felicidade que por muitos é buscada.” Então quer dizer que é permitido sorrir para as outras pessoas, que de olhos rasteiros caminham apressadas para algum destino talvez não satisfatório... Quer dizer que é possível arrancar alegrias de um fiscal de trânsito anotando hermeticamente as placas de alguns carros ao falar-lhe, com um imenso sorriso nos lábios, que me desculpasse, pois minha bike estava sem placa... quer dizer, então, que é possível constatar, juntamente com um carroceiro desdentado e a princípio triste, a beleza de uma tarde nublada e fria, quando se dá a ele, gratuitamente, um sorriso, desejando-lhe uma mera boa tarde. Então quer dizer que é possível a felicidade sem subsidiá-la com apetrechos instituídos... Quer dizer que é possível respeitar, compreender, vangloriar o tempo, com o tempo, indo de bike de Ceilândia a Brasília marcando com o coração as melodias que talvez eu nunca cantaria tão alto em minha casa... Ainda que gélidas gotas, aparentemente decepcionantes, toquem de com força nos corpos livres daqueles que pedalam, haverá na boca, daqueles que pedalam, os traços formadores do sorriso.

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