quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Pois às vezes consigo arrancar sorrisos de instabilidades joviais, consigo esquecer de amores inesquecíveis; às vezes consigo ler poesia nas noites de nuvens roxas das entrequadras e rabiscar versos medíocres nos corpos de mulheres que penso amar

Um quadro

Havia balbucios de notas chamegadas Havia uma noite de estrelas pingadas Havia também uma bicicleta, mas nem um pouco seleta O amor nos faz parar no tempo E se não há tempo, não há o que querer...

domingo, 14 de julho de 2013

Viagem dos atores

Tendo somente o enquadramento de uma estrada que passa, nota-se facilmente o quanto de solidão há dentro da gente, o quanto de silêncio. Viver podia ser somente viajar, o aprendizado que se tem é muito maior que a edificação de si em um único lugar. Viajar, chegar, partir. Uma sucessão de felicidades e dores de não se aguentar quando nos peitos daqueles tolos que desperdiçam suas vidas valorizando o que não é transitório. Felizes daqueles atores fudidos em excursão pelos países recolhendo sorrisos e histórias que nunca sairão de suas memórias. Apesar de tudo, a vida apenas passa. Não há o que ser feito. Se se tem a intenção de segurá-la, ela rápido escorre por entre os dedos deixando uma lacuna tão escrota de fuder com qualquer coração. O meu consentimento com o seu eterno estado de passante causa-me uma fraqueza aparente, uma dor aparente, puramente visual aos que me olham e me julgam. Consigo sentir o cheiro de saudade que sai de minha respiração, o gosto das lembranças que tiveram início depois de o risco do viver ter sido assumido, a tepidez do silêncio e da solidão. Pareço exalar tristezas só pelo fato de estar vivo e continuar; vagando por aí, recolhendo lembranças. Talvez seja visível nas camadas vítreas de meus olhos as lamúrias cheias de peso que recolhi ao longo de minha vida; mas tão necessárias. Que esta pujança de lamúrias dure o quanto durar minha irrisória existência, é o quanto peço à Baco enquanto simples brincante do mundo. Embora só, há nas lágrimas um pouco de companhia.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ride my bicycle

Pude receber o vento frio das planícies nubladas. A boca aberta tomava formas desordenadas que o vento propunha. Só, nas recentes pistas de caminhada que envolviam uma recente verde área cheia de cheiros e expectativas... quem sabe saísse dali pessoa de má intenção? Ainda mais tendo eu visto resquícios de gente no gramado molhado... Só, com minha bike, compartilhando, ou tentando, as pistas infinitas com os carros. Carros, não pessoas, que talvez nunca poderiam estar sozinhas como eu estava; que talvez não poderiam sorrir, como eu estava. Digamos que a felicidade é para os poucos, para os poucos, que diferente dos muitos, pouco desejam. Derrepente ir pelo menos em uma rotina de quantidade desdiz todo o alienamento capitalista. Por um instante a liberdade existe, toda palpável e cheirosa e bonita e tantas poucas coisas nos meus bolsos e na minha mochila rasgada... Podendo haver quem diga o contrário, lógico, subterrando manifestas felicidades simplórias unicamente para impedir a proliferação de uma felicidade não rentável. O que seriam das concessionárias caso seus consumidores descobrissem que de fato não precisam delas? Alí, com o vento na cara e o pedal sobre os pés não poderia haver ódio, lágrimas, rejeições. O que não pensar da existência?: que sua durabilidade tem de se fazer preponderantemente de felicidades; que a tristeza não existe já que existem todas as coisas compráveis para extinguí-la. Foda! Ali, com o sorriso na boca e a música no peito, o momento – curto que seja – existia e nada mais. Perfeitamente bastante! O que não viver na vida?: O momento que ainda não existe; a futura tristeza de futuros prazos vencidos e recalculados em juros; o futuro reajustado com todas as coisas cujas posses são indispensáveis – como nos fizeram crer. Pode ser que a solidão de um homem não o faça gastar tanto quanto se estivesse na companhia de outros, talvez seja por isso que o sorriso só, a felicidade solitária, os risos altos deixados nos ventos cortados pela deslizar da bicicleta e não escutados por ninguém sejam considerados insanos. “Eis ali um louco que consegue tirar de sua solidão e do pedalar sem caminho a felicidade que por muitos é buscada.” Então quer dizer que é permitido sorrir para as outras pessoas, que de olhos rasteiros caminham apressadas para algum destino talvez não satisfatório... Quer dizer que é possível arrancar alegrias de um fiscal de trânsito anotando hermeticamente as placas de alguns carros ao falar-lhe, com um imenso sorriso nos lábios, que me desculpasse, pois minha bike estava sem placa... quer dizer, então, que é possível constatar, juntamente com um carroceiro desdentado e a princípio triste, a beleza de uma tarde nublada e fria, quando se dá a ele, gratuitamente, um sorriso, desejando-lhe uma mera boa tarde. Então quer dizer que é possível a felicidade sem subsidiá-la com apetrechos instituídos... Quer dizer que é possível respeitar, compreender, vangloriar o tempo, com o tempo, indo de bike de Ceilândia a Brasília marcando com o coração as melodias que talvez eu nunca cantaria tão alto em minha casa... Ainda que gélidas gotas, aparentemente decepcionantes, toquem de com força nos corpos livres daqueles que pedalam, haverá na boca, daqueles que pedalam, os traços formadores do sorriso.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Poesia de um funcionário público

Barriga cheia Coração vazio

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A melhor coisa que pode acontecer a um homem de sociedade é ter um imprevisto no curso massante de seu dia comercial. Só assim o seu dia seria significativo. Se lhe quebra o carro, por exemplo, quando esse homem sai ao ofício, logo terá algumas horas ou, por sorte, o dia inteiro, de vaguidão; colocando-se na espera de uma ajuda que lhe salve - ou, no caso, lhe condene - enquanto lhe passa a cabeça várias formas de explicação a respeito daquilo que o livrou de suas obrigações rotineiras. Nesse caso, pode-se imaginar Robertin, seu chefe, ouvindo seu funcionário que empenhadamente constrói um discurso de desculpas despropositadas num lamentoso tom para que não pairem dúvidas a respeito do incidente. - Tudo bem, Esmegma! Você é um bom funcionário mesmo! Se fosse o Saumora não aliviaria. Mas você! Então o cidadão desligaria o telefone, aliviado, e soltaria uma forte rajada de ar pelas narinas provinda de seus pulmões tenazmente entumecidos. E sentaria em uma gélida sombra decorrente de uma grande árvore de folhas verdes, verdinhas. E colocaria seus olhos no rumo dos espaços abertos, absorvendo a solidão de uma beira de avenida metropolitana e permitindo-se voar nos pensamentos que lhe presenteiam as horas vagas.

domingo, 21 de outubro de 2012

Nestes exatos segundos de perca, de não se saber o que será feito, de silêncio e astaticidade, tinha algumas coisas para dizer. Não se incomode, eram coisas absurdas de mais para serem escutadas. Assim como a minha vida. Disse, hoje ainda, que o motivo despropositado do meu silêncio era o cansaço. O cansaço de viver, de se manter vivo, de sobreviver quando a vontade preponderante é a de fazer exatamente o contrário. A morte? Por aqui as coisas continuam; nem se cessar elas se cessam, elas apenas continuam, como se fosse essa a única opção. Por aqui se aloja uma tristeza milenar, imutável, densa e triste. Deveria bastar para os peitos solitários; e de fato basta. Já não sei o que digo... Assim como a vida esta escrita despropositada me é totalmente insignificante e triste. Não por tratar de um tema que poderá ser triste, mas pela literatura totalmente ruim – triste! Carregava, como quem carrega pequenas pedras que estalam com o balanço galhofeiro da mão, algumas lembranças sobre as quais depositava certa felicidade. Agora já não carrego, pois são vãs de mais e seus pesos e volumes não compensam ser trazidos por mim, nem por ninguém. Porque se de fato há uma caminhada infindável, essas tolas lembranças felizes só ocuparão espaço onde já há um vazio. Por aqui as tristezas se acumulam pelos cantos, outrora doía bastante vê-las jogadas, acumulando maldizeres e provocando lágrimas a quem quer que as olhassem. Agora o foda-se meio que tomou conta de tudo e nada mais parece ser de fato importante. Nem mesmo aquelas poucas e ralas lembranças que insisti em trazer nas mãos só para lhes ouvir os estalos. Por aqui se aloja um silêncio muito grande; e nos parece que não há mais vozes para preenchê-lo. Por aqui se insiste em petrificar os sorrisos passageiros e perdurar as dores que não são eternas, apenas desejáveis. Já não sei o que quero, a que busco... Entrei na fila lenta esperando, talvez, alguma garantia de futuro. Porra! Não poderia esperar por mais nada? O futuro? Todas as pessoas sofrem demasiadamente, meu caro. Por que eu não haveria? E você? Sejamos silenciosos e tristes. Assim vivemos no sossego que a falta de felicidade proporciona. Não? A espera... Já não sei o que digo.