terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A incorporação do improviso ao texto


Tudo surge do improviso. O acaso e caos são coisas extremamente necessárias para a mantença da vida. Em teatro, o improviso é peremptório, primeiro porque a montagem de uma peça não seria possível sem o improviso, já que os ensaios são, por si só, uma forma de improvisar, como bem nos lembra Sandra Chacra em seu Natureza e sentido da improvisação teatral; depois, porque improvisar constata o organismo vivo que é o teatro. Mas chamo atenção, aqui, especificamente, para a irrefutável necessidade de modificar o texto, já previamente estabelecido, em prol da reação da platéia, que é o que se vê, mais comumente, nos processos de criação dos grupos de comédia.
Dentre os vários exemplos, há na peça Como passar em concurso público da Cia de comédia G7, do segundo elenco que se encontra em cartaz no Rio, uma cena em que os atores optam por quebrarem a estrutura, sair intencionalmente do jogo, expondo intimidades de um determinado ator para depois, como se constatassem o caráter ilusório e brincante do teatro, rapidamente retomarem o jogo e suas respectivas regras. Isso se deve graças ao medidor vivo e sensivelmente reativo de espetáculos, a platéia, a qual, em vista de tal "improviso", teve uma reação maravilhosamente boa para os intentos de tal peça.
Aos olhos do público tudo é um momento único que eles tiveram a oportunidade de presenciar. Mas para os atores é apenas mais uma forma que, assim como o texto, precisa ser renovada a cada dia e ser, sobretudo, extremamente verdadeira, pois corre o risco de não mais fazer o pretendido efeito, pois, afinal, o improviso é um ato único que acontece de acordo com determinadas circunstâncias únicas, sendo, portanto, irrepetível, parafraseando novamente Chacra.
O teatro não tem a intenção de ser literário. O texto, por si só, morre se não revisto pelo imprescindível ato de contemporaneidade. Incorporar improvisos ao texto é uma forma, dentre as várias, de mantê-lo vivo.
Porém, o improviso quando incorporado ao texto, entra, por sua vez, em um estado estático, sendo-lhe atribuído, portanto, a condição de vivente e como tal, morre. É por isso que a forma do teatro é uma não forma, nunca é uma forma acabada em si, é sempre um estado de movimento, de tempo presente, de "momento já".
O Teatro Esporte de Johnstone faz jus ao caráter vivo do fazer teatral e nos faz compreender que o verdadeiro processo de depreensão do teatro está longe de ser encontrado nos âmbitos literários, no pensamento literário; mas sim, unicamente e simplesmente, no teatral.

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