O teatro é, por si só, uma vida paralela que existe e se desenvolve a cada realização compreendida dentro dos âmbitos do fazer teatral; existência esta que seria completamente autônoma se não fosse a precisão que o teatro tem de estar necessariamente concernente com o outro paralelo, com a contemporaneidade, com a vida que é extremamente fugaz, com a vida que se vai a cada segundo, daí a peculiar e tão extraordinária e humilde forma de o ato teatral existir somente em um único momento.
O teatro tem a vociferante precisão de ser a cada instante algo do que ainda não foi, de ser a cada instante um momento único e irreprodutível do qual se vive a vida de que desse momento possa viver, do qual se vive a extrema intensidade do outro paralelo, transmutando em metáforas, ideologias e alegorias. Dessa forma, existe uma oportunidade única de se viver, tanto para atores quanto público, utopicamente no momento, que assim como a vida, é extremamente fugaz; viver o que não se poderia no outro plaralelo vazio e friamente denotado. O teatro tem por necessidade, não só de proporcionar os aprazíveis instantes catárticos, não só ser, às vezes, um mero entretenimento comumento equiparado a uma opção qualquer de diversão, não só ser, por vezes, dialético e gerando por consequencia uma reflexão, não, mas ser avidamente vivo, tendo em sua estrutura todos os elementos, contemporâneos é claro, que o torne necessário para o hoje, para o agora; transmitir-se através de uma linguagem que seja intimamente próxima dos seus receptores.
Portanto, certamente não seria insensto darmos merecidos créditos para as apreciáveis e comunicativas obras populares e improvisacionais de Dário Fo, para o caráter imaginativo e sempre em metamorfose do teatro de Peter Brook, para a dialética que nos faz pensr a realidade da época do teatro épico de Brecht, da comédia besteirol aberta, saudável e extremamente próxima de seus públicos das companhias brasilienses Melhores do Mundo, G7, De 4 Naipes, Setebelos e Anonimos da Silva, para as grandes iniciativas que incorporaram ao teatro do sec. XX possibilidades até então inexistentes no cenário teatral brasileiro como fez o TBC, o Teatro de Arene de Zé Regino e Guarniere e tantos outros grupos, os quais primaram por um diálogo efetivo entre o momento presente e o público, não importando a maneria pela qual cada um utilizou para atingir seus objetivos.
O teatro deve estar em constante movimento, justamente pelo fato de que não se pode reter o momento presente. A cada século, a cada ano, a cada dia, a cada hora, tem-se sempre um novo momento do qual nunca se teve; tem-se sempre um espetáculo, uma apresentação, tem-se sempre um novo teatro. Portanto, sejamos metamorfos. Estejamos sempre em movimento, depreendendo técnicas acadêmicas e populares, experimentando coisas que não irão dar em nada, arriscando-se intemerosamente entre as possibilidades de plátéias vazias e lotadas, sendo o máximo que se pode ser. Tendo disciplina ou criando a mercê dos impulsos, não se preocupando com as certezas, com as formas predeterminadas, porque, definitivamente, não há receitas prontas, ou como diz Peter Book:
"A disciplina, em si, pode ser tanto negativa como positiva. Pode fechar todas as portas, negar a liberdade ou, no extremo oposto, constituir o rigor indispensável para emergir do lamaçal de 'qualquer coisa'. Por isso é que não há receitas prontas. Permanecer muito tempo no superficial logo se torna banal. Permanecer muito tempo nas alturas pode ser intolerável. Temos que estar em movimento o tempo todo". (BROOK. A porta aberta. 5 ed. Rio de Janeiro, 2008, p. 52)
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