sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

No Rio de Janeiro, bem perto do sol...

Não se pode viver na espera. Não se deve viver da espera. Esta noite gostaria de rezar pelos corações atormentados. Aqui, bem perto do sol, onde as horas transmutam-se em liguentas salivas que parecem ser de algum gingante, e, portanto, posso tocá-las, há um quadrado dentro do qual se enquadra minha vida; tão denotadamente hermética e fria que não há restos de esperanças possíveis. Aqui onde os únicos sorrisos parecem provir dessas porras de murisocas assassinas que insistem em não morrer. Aqui, onde, apesar do sangue que jorra pontualmente à meia noite, parece ser o único lugar capaz de abrigar minha solidão que é rogada, que é bem vinda, que é amada.
É o que dá não ser olhado. Os olhos dos quais meu egoísmo sempre precisou. Parece restar uma liberdade extremamente vazia e lenta que por ser tão intensamente liberdade deixa de sê-lo; corrompendo o meu saudoso modo de sofrer e trazendo-me um novo, mais gostoso eu diria. Talvez há alguém naquela janela negra ali adiante, mas tudo aqui é tão morto e inóspito que parece não haver intenções que resistam - a não ser a minha que insiste em sobreviver, não sei por quê; mesmo quando os futuros passaram a não existir e o presente passou a ser nas terças e quartas, à noite apenas.
Ouvi dizer que havia bocas cintilando suas brancuras logo adiante, na praia, mas e daí? Me disseram pra ir até lá. Mas não vou. Não quero que esses mundos particulares sejam compartilhados com as vozes, que apenas ouço, e com os estalares de unhas na serâmica e muito menos com cheiros peludos e desagradáveis. Além do mais, não cogito criar uma esperança, porque já não me sobra tampo suficiente para viver nela.
Parece que estou conseguindo subsistir, em vão, é claro, mas estou. Até o dia da minha mais próxima morte. Aquela que tanto espero. Tá na hora de não esperar o que a mim possa vir, de não desejar melhoras. Apenas aguardar essa porra deste tempo e o que mais possa vir em sua espessa e liguenta baba. Carregar a cruz e ter fé. Eu tenho fé. E quando eu penso em minha profissão eu já não tenho mais tanto medo da vida.

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