quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A melhor coisa que pode acontecer a um homem de sociedade é ter um imprevisto no curso massante de seu dia comercial. Só assim o seu dia seria significativo. Se lhe quebra o carro, por exemplo, quando esse homem sai ao ofício, logo terá algumas horas ou, por sorte, o dia inteiro, de vaguidão; colocando-se na espera de uma ajuda que lhe salve - ou, no caso, lhe condene - enquanto lhe passa a cabeça várias formas de explicação a respeito daquilo que o livrou de suas obrigações rotineiras. Nesse caso, pode-se imaginar Robertin, seu chefe, ouvindo seu funcionário que empenhadamente constrói um discurso de desculpas despropositadas num lamentoso tom para que não pairem dúvidas a respeito do incidente. - Tudo bem, Esmegma! Você é um bom funcionário mesmo! Se fosse o Saumora não aliviaria. Mas você! Então o cidadão desligaria o telefone, aliviado, e soltaria uma forte rajada de ar pelas narinas provinda de seus pulmões tenazmente entumecidos. E sentaria em uma gélida sombra decorrente de uma grande árvore de folhas verdes, verdinhas. E colocaria seus olhos no rumo dos espaços abertos, absorvendo a solidão de uma beira de avenida metropolitana e permitindo-se voar nos pensamentos que lhe presenteiam as horas vagas.

domingo, 21 de outubro de 2012

Nestes exatos segundos de perca, de não se saber o que será feito, de silêncio e astaticidade, tinha algumas coisas para dizer. Não se incomode, eram coisas absurdas de mais para serem escutadas. Assim como a minha vida. Disse, hoje ainda, que o motivo despropositado do meu silêncio era o cansaço. O cansaço de viver, de se manter vivo, de sobreviver quando a vontade preponderante é a de fazer exatamente o contrário. A morte? Por aqui as coisas continuam; nem se cessar elas se cessam, elas apenas continuam, como se fosse essa a única opção. Por aqui se aloja uma tristeza milenar, imutável, densa e triste. Deveria bastar para os peitos solitários; e de fato basta. Já não sei o que digo... Assim como a vida esta escrita despropositada me é totalmente insignificante e triste. Não por tratar de um tema que poderá ser triste, mas pela literatura totalmente ruim – triste! Carregava, como quem carrega pequenas pedras que estalam com o balanço galhofeiro da mão, algumas lembranças sobre as quais depositava certa felicidade. Agora já não carrego, pois são vãs de mais e seus pesos e volumes não compensam ser trazidos por mim, nem por ninguém. Porque se de fato há uma caminhada infindável, essas tolas lembranças felizes só ocuparão espaço onde já há um vazio. Por aqui as tristezas se acumulam pelos cantos, outrora doía bastante vê-las jogadas, acumulando maldizeres e provocando lágrimas a quem quer que as olhassem. Agora o foda-se meio que tomou conta de tudo e nada mais parece ser de fato importante. Nem mesmo aquelas poucas e ralas lembranças que insisti em trazer nas mãos só para lhes ouvir os estalos. Por aqui se aloja um silêncio muito grande; e nos parece que não há mais vozes para preenchê-lo. Por aqui se insiste em petrificar os sorrisos passageiros e perdurar as dores que não são eternas, apenas desejáveis. Já não sei o que quero, a que busco... Entrei na fila lenta esperando, talvez, alguma garantia de futuro. Porra! Não poderia esperar por mais nada? O futuro? Todas as pessoas sofrem demasiadamente, meu caro. Por que eu não haveria? E você? Sejamos silenciosos e tristes. Assim vivemos no sossego que a falta de felicidade proporciona. Não? A espera... Já não sei o que digo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

CLARO

- Isso que você tá me dizendo não teria sentido ou importância caso me fosse dito alguns dias depois de hoje. - Disse-me Jack sustentando uma xícara de cappuccino próximo aos lábios, deixando seus olhos envoltos pela fumaça quente da bebida. - Você acha? - Ochi! Mais é claro, porra! Não lhe disse nada de mais. Só lhe contei a respeito dela. Perguntei-lhe, com uma leve pretensão de lhe dizer o enorme encantamento que tive, quantas mulheres ele já conheceu que tinham um perfume próprio. - Algumas - Disse ele deixando a xícara sobre a mesa e abrindo o peito apoiando os braços na cadeira - Principalmente prostitutas do Setor O. Mas essas não tinham cheiros agradáveis... - Essa mina, Jack, não cheira Boticário, nem Nívea, nem nada. Ela tem o próprio cheiro! Já imaginou isso? Feito a partir de sua personalidade. - Personalidade? - É. Personalidade... de sua pessoa, saca? Um cheiro sereno e silencioso; diferente de seu sorriso ligeiro e bem formado. - Só... - Disse Jack soltando uma forte rajada de ar pelo nariz, tão forte que lhe foi inevitável conter algumas impurezas acumuladas pelos dias secos e tristes de agosto. Disse a Jack que todas as palavras dela pareciam me remeter a uma espécie de felicidade eterna. Costumava intervir sorrisos repentinos em seus raciocínios elaborados, como se todas as coisas derrepente virassem brincadeira e a vida derrepente valesse a pena. - Uma certa vez ele me disse que teríamos de levar a vida brincando. Sempre! - Ochi! Quantos anos ela tem? - Não se trata de idade, Jack. - Já tenho muitos amigos pedófilos. Mais um é foda. - É apenas uma maneira alternativa de encarar a realidade, pô! Disse também a Jack que era debaixo de prédios e estrelas apagadas que nossas mãos temerosas costumavam se tocar, mantando entre elas o meu calor pesado e a sua leveza de perfume próprio. Jack alertou-me sobre o amor ou algo do tipo e disse-me que o frio da beira do Lago trazia, aos seus contempladores - ou pelo menos a um deles, um sentimento largo e remanescente que causaria dor pela sua indefinição e expectativa. Disse que sim, não sem antes ensimesmar-me em sua afirmação. - Ela brinca, Jack! Ela lê Shakespeare no original! Ela sorri! Assim por gosto ou por prazer, ainda que se possa ver lágrimas em seus olhos. - Cabuloso! Talvez tenha alguma coisa no cabelo dela... - Ela acaricia o meu coração, sorrindo é claro, e joga fora com um estalo de dedos as escuridões que encontrou lá dentro. Me sinto bem e a agradeço, ancioso por poder retribuir, mas não consigo. - Aí que tá! todo o bem que vem dela é de graça! Não se paga por ele, entende? Defícil entender, né? Que merda você é muito mal! Talvez tenha alguma coisa no cabelo dela... - É. Sou. Mas tô tentando mudar. Ela disse que era possível... - Sei... - E deu mais uma golada no seu cappuccino já sem fumaça - Talvez tenha alguma coisa no cabelo dela... O dia foi morrendo sem que percebêssemos e Jack não tirava os olhos do sol que desaparecia. Lembrei-me da escuridão lenta que tomou os verdes do povoado de São Jorge, nos tempos em que me permiti apaixonar. - É... É assim mesmo... A vida vem a vida vai! - Disse Jack desviando seus olhos fatigados para a xícara vazia - Tudo é muito absurdo. Agente deixa que as coisas fiquem sérias de mais, aí já era... - Engraçado, ela me falou sobre isso também. Jack levantou-se apressadamente e saiu. Sem pagar o cappuccino. Acompanhei-o e demos os braços subindo, exaustos, a ladeira. Andamos em silêncio e a vida parecia ser triste.

sábado, 30 de junho de 2012

em um banco de Igreja anexado à uma conta

TU QUE ME LES, POR OBSÉQUIO, COMPREENDA. QUERO, ENFIM, TER UMA COSTATAÇÃO DA FÉ POR MEIO DESTE ATO QUE ACREDITO QUE PODES ME AJUDAR. ARREPENDI-ME DOS FINAIS NOS QUAIS SEMPRE ME ENCONTRO NO FINAL DAS NOITES DE AGITO, DE CURTIÇÃO, DE PEGAÇÃO... ARRPENDI-ME DE LEVAR UMA VIDA CHEIO DE SORRISOS VAZIOS E DE COMPANHIAS QUE SOMENTE VÊEM ESSES SORRISOS E NÃO A TRISTEZA, A SOLIDÃO. GOSTARIA MUITO DE RECOMEÇAR; E O QUE ME FALTA, DENTRE AS MAIS PESAROSAS MAZELAS DO RECOMEÇO, É QUE ESTA DÍVIDA SEJA PAGA. PROVANDO-ME ASSIM A GLÓRIA E AS IMPOSSÍBILIDADES FEITAS POSSÍVEIS QUE A FÉ PODE FAZER. ACREDITO QUE ASSIM MEU RECOMEÇO POSSA SER MAIS SIGNIFICATIVO, TENDO EM VISTA QUE, SE SANADA A DÍVIDA, ESTAREI DE FATO ABENÇOADO POR DEUS. GRATO...

terça-feira, 12 de junho de 2012

DAS EXPECTATIVAS

Nego diz por aí que nego confunde de mais os sentimentos. É... talvez seja verdade,né? Muitas vezes tem disso mesmo, de você supor-se apaixonado por repetir pequenos gestos que geralmente só os apaixonados fazem, quando na verdade você apenas gosta; e aí você repete tais gestos talvez por sentir falta de se sentir apaixonado – porque querendo ou não é um sentimento bom - ; ou talvez por se sentir carente e precisar deles, dos gestos, para sanar, por uma noite que seja, essa saudade que a pele tem de outra pele. E que porra de gestos são esses? Ah! Sei lá! Tipo, deslisar devagar sua face em uma outra face aproveitando, enquanto durar esse gesto, para sentir o perfume, o calor, a dosagem das intensidades em que as faces se tocam... sentir através dos lábios as características da outra boca... Pô, eu acho que isso são gestos que, geralmente, só os apaixonados fazem. Mais tem uma parada aí! São gestos que não existem apenas em duas pessoas apaixonadas – definitivamente não!; ou que são feitos apenas como um pretexto para uma trepada digna de duas pessoas apaixonadas – Não! Esses gestos, esses simples gestos – não sei por que os chamei de “gestos” – eles representam a pura verdade de uma pessoa! E aí que ta a parada! Se você tiver coragem de olhar para trás e me dizer que foi feliz até então, dito no que diz respeito ao... (gesto de fudelância), certamente você vai me dizer também que um dos melhores beijos que você já provou foram aqueles bem peculiares...; aqueles que a princípio você, talvez, até estranhe pela audácia, pela liberdade e pela sinceridade que a outra boca te beija... mas que no fim das contas você gosta; e muito! É a verdade, entende? Mostrar sua verdade para uma pessoa é ter muita coragem; certamente que é. Agora... fato é que vivemos com muitas máscaras; e quando as retiramos, com muita dificuldade é claro, e nos apresentamos com esses gestos, dignos de pessoas apaixonadas, dignos da nossa verdade, logo vem a rapariga me dizer que não tem como não estarmos apaixonados! Porra, pera aí! Agente confunde de mais nossos sentimentos; eu só dei a ela o que daria a qualquer uma – menos para as altas, não gosto de mulher alta – a qualquer mulher que eu goste, ou seja, todas – é... acho que também não gosto das muito gordas... É quase um gostar de amigos, sabe? Só que amigos com sexo diferentes que as vezes se pegam. A diferença entre ter um amigo homem e uma amiga mulher é que um paga a cerveja e o outro o boquete. Quem disse que homens não têm amigas? Não digo dos gays, é claro... e aliás quero até morrer amigos deles, justamente por esse motivo... Amigos que conversam sobre tudo, que ficam muito doidos juntos, que trocam carícias por mais que não seja um pretexto para uma trepada, amigos que transam e dormem juntos. Isso não é estar apaixonado. Ou é? Talvez as pessoas devessem deixar mais claro quem elas realmente são; tanto sobre suas intenções, quanto sobre seus sentimentos. Aí sim seria mais fácil. Nenhuma mulher sofreria a toa por expectativas não correspondidas e nenhum homem precisaria mentir só pra comer mais uma. Quando é que as mulheres vão entender isso? Opa, disculpa.... digo... as poucas que ainda não entenderam?

quarta-feira, 6 de junho de 2012

São Paulo, dia 12 de janeiro de 2009

Todos os sinais fechados.
Em uma escuridão de irrevogáveis esperanças,
vozes lacrimosas berram à felicidade.
Todos os sinais fechados.
Túmulos se abrem
sobre o céu longínquo
da Av. Paulista e almas perdidas entram dentro.
Todos os sinais fechados.
De fato nada mudou, a tradução do mundo
continua sendo a tristeza
A tristeza...
Todos os sinais fechados.
Todos por uma busca vã,
por uma crença de vidro,
por um amor inexistente.
Avenidas em X
marcam onde jaz meu corpo ermo;
vidas se arrastando pelos longos caminhos
de longas avenidas
e no entanto,
todos os sinais fechados.

domingo, 3 de junho de 2012

O amor

Eis um fato, meu caro Jack:
Estava eu na universidade...
- Universidade de cu é roala! Interrompeu-me Jack sem variar a expressão neutra de seus olhos rasos, com uma xícara de café prestes a tocar seus lábios.
Sim, sim. Estava eu em uma daquelas aulas, só mesmo por estar, quando derrepente surpreende-me pousando intimamente o braço sobre meu ombro um moleque, meu colega - veja bem que não é amigo. Se posso confiar na memória, diria que nos vimos duas ou três vezes cruzando, ambos apressadamente, os corredores da universidade.
- Universidade de cu é rola!
Sim, sim. Apoiou o braço gentilmente e confortavelmente e ficou a olhar alguma coisa que eu desempenhava que não me lembro bem... ou me lembro e não quero te dizer para não lhe dar motivo de zuar com minha cara.
- Já sei, você estava bolando um beck!
- Não, não.
- Uê? Você não estava na UnB?
Em fim. E aí o moleque ficou olhando, olhando, eu olhando para ele e ele com aquele sorriso que não estava na boca, mas que transbordava pelos olhos. Meio sem jeito e um pouco incomodado perguntei-lhe se lhe agradava o que eu estava a fazer. Disse prontamente que sim e chegou a fazer alguns comentários elogiosos, não a toa para me deixar mais confortável, a final estávamos muito próximos um do outro, sendo que não existia entre nossa relação de colegas nenhuma intimidade, mas, acredito, para contribuir com o que eu desempenhava.
 Em uma situação dessas, Jack, creio que a maioria das pessoas, as pessoas que não estão a receber a pressão do toque do amor, falariam por falar, sem realmente considerar o que eu estava a fazer; diferente desse moleque que além de ter me dado uns toques de como melhorar o meu trabalho elogiou o que não precisava melhorar.
- O moleque estava sobre a pressão do toque do amor?
Sim. E eu nem desconfiava. Fui saber muito depois quando a aula terminou e ficamos a conversar sobre a vida embaixo de um céu pobre e escuro. Insisto em dizer que o moleque era apenas meu colega, não amigo; apenas o vi algumas vezes nos corredores da Univer...
Jack já ageitava os lábios para dizer sua frase de rotina. Interrompendo a minha, não lhe dei chance para dize-la.
- Então o grande lance disso tudo é...? - Falou com certa impaciência esperando a resposta e soltando pelo nariz uma forte rajada de ar que eu pensava trazer impurezas já que era bastante ruidosa.
O grande lance, Jack, é que o amor transforma as pessoas! O grande lance é que o amor faz coisas com os apaixonados que nada poderia fazer igual.
- Nem a maconha?
Nada! O grande lance é que o amor evita guerras, evita o ódio, evita o demônio, cara! Era um moleque que eu nem conhecia... era daquele tipo de pessoas que só temos conhecimento pois em algum momento da vida, que refutamos gravar na memória, cumprimentamos de passagem nos corredores; e aí ele me vem apoiar o braço no meu ombro e puxar conversa? Poxa! O moleque devia estar muito feliz. Muito feliz para quebrar todas as frias formalidades, cruzar um espaço considerável para chegar a mim, aproximar de mim, e bem perto, apoiar o braço sobre meu ombro e ali ficar por muito tempo - tendo em vista que não tínhamos nenhuma intimidade, então foi muito tempo.
- É... a paixão é pra poucos... Admiro esse moleque. Se existem pessoas, como eu, que vivem em busca da  lombra eterna, outras, como esse moleque aí, já a encontraram. O amor é a maior das lombras. Estar apaixonado é a brisa mais forte já sentida.
Então! O foda é que o moleque insistiu na felicidade, a fez durar enquanto ainda havia dia, conversando comigo, só nós dois, ao final da aula.
- Embaixo de um céu pobre e escuro?
Sim! Ficamos conversando por muito tempo. Ele me falando de coisas que certamente eu não falaria a um colega cujas relações não passavam de escassos cumprimentos em corredores. Coisas de sua vida, coisas íntimas, sabe? E eu a ouvi-lo atentamente impressionando-me cada vez mais com sua sinceridade. Ele se empenhava em me contar as coisas, parecia empolgado demais por estar vivo; a felicidade não lhe cabia, era necessário dividi-la com as pessoas sortudas que o rodeavam e eu, por acaso, era uma delas.
Tudo se fez mais claro, Jack, quando ele recebeu uma ligação e de sua boca risonha e branca ouço "amor". Aí, então tudo fez sentido.
- Caralho..!
Pois é. Depois de um tempo um carro chega e ele diz que tem que ir. Ele se afasta e tenho a impressão de que está pulando de alegria, mas é só impressão mesmo.
- Você tinha fumado?
Não, pô. Ele chega perto do carro e dele desce um cara alto, magro, bem arrumado que lhe beija a boca.
- Ah! o moleque era gay!
Sim. Os dois entram no carro e vão embora tendo como trilha Give me all you luvin da Madonna.
- Pois é... como eu disse a paixão é pra poucos... Diria que atualmente só pros gays. O relacionamento hétero é uma coisa falida, sabia?. As mulheres já não aceitam simplesmente abrir suas bucetas permitindo a entrada de um pau, preferem que sejam acariciadas por uma língua, de preferência feminina.
Isso é porque você está andando muito com esse povo da UnB, Jack.
- Você acha?
Sim.
Embora esperasse que dissesse algo, Jack apenas deu aos olhos um caráter perdido e aproximou sua xícara  aos lábios.